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Aumento rápido de juros com dívida pública alta cria 'efeito perverso', diz Campos Neto

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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou que aumentar rapidamente a Selic em um ambiente de dívida pública elevada pode criar um "efeito perverso". Segundo ele, isso ocorre porque grande parte do endividamento foi contraído a juros baixos.

"Quando olhamos o estoque de dívida, estamos em um nível que a gente não viu ainda, grande parte contraída em taxa de juros baixa. Então temos esse efeito convexidade da dívida, que é um efeito muito perverso se o juro subir rápido, principalmente no mundo mais desenvolvido", disse em evento virtual promovido pela Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) nesta quinta-feira (12).

Na semana passada, o Copom (Comitê de Política Monetária) do BC elevou a Selic em 1 ponto percentual, maior alta em 18 anos. Os juros foram para 5,25% ao ano. Para a próxima reunião, em setembro, o Comitê indicou que fará nova alta na mesma magnitude.

Com a decisão, o BC acelerou o ritmo do ciclo de aperto monetário, que vinha sendo de alta de 0,75 ponto nos encontros anteriores.

No Brasil, a dívida pública bruta está em 84% do PIB (Produto Interno Bruto). O endividamento registrou crescimentos expressivos por mês desde o início da pandemia de Covid-19. Depois da chegada do vírus ao país, o governo teve de gastar mais em programas emergenciais, como o auxílio emergencial e linhas de crédito para empresas.

Em fevereiro deste ano, a dívida alcançou 89,3% do PIB, maior percentual da série histórica iniciada em 2006, mas voltou a cair nos meses seguintes com a alta da atividade econômica, aumento da arrecadação e redução de gastos com a pandemia. No mesmo mês de 2020, último antes dos impactos da crise sanitária, a dívida estava em 75,2%.

O titular do BC pontuou que a maioria dos países emergentes já iniciou o ciclo de alta da taxa básica de juros. "Onde não estamos vendo alta, as curvas já começam a apressar o movimento de subida de juros", disse.

Campos Neto reiterou que o BC fará o que for necessário para ancorar as expectativas de inflação, indicando que a autoridade monetária poderá acelerar ainda mais a alta da Selic nas próximas reuniões caso o cenário piore.

"O BC vai fazer o que for preciso para ancorar as expectativas, não existe dúvida em relação a isso. Vamos usar todos os instrumentos na medida que for preciso para que a inflação fique ancorada a médio e longo prazo", reforçou.

Na terça-feira (10), o diretor de Política Monetária, Bruno Serra, havia feito comentário semelhante. "Quando se está disposto a fazer o que for necessário, não existe restrição. O BC pode sempre ajustar os seus passos se o cenário mudar, mas parece que esse nível de ajuste tempestivo é bastante adequado no momento", afirmou.

"Quando o BC passou uma mensagem mais dura e definitiva [sobre a atuação de política monetária], as inflações implícitas mais de longo prazo começaram a cair", disse Campos Neto.

O presidente do BC atribuiu as sucessivas revisões para cima das expectativas de inflação, mesmo diante do maior aperto monetário, à ruídos sobre a política fiscal e voltou a falar da importância de se passar credibilidade aos agentes econômicos.

"O movimento recente de crescimento [das expectativas] de longo prazo está ligado à percepção fiscal, por isso é importante passar uma mensagem de credibilidade aos agentes econômicos", ponderou.

Sobre a inflação, Campos Neto disse que há surpresa inflacionária em todo o mundo e afirmou que há um movimento de inversão entre os setores de comércio e serviços.

Para ele, a pandemia pressionou o consumo de bens e gerou alta nos preços, enquanto os serviços ficaram deprimidos, cenário que foi revertido recentemente.

"A inflação de serviços vem subindo na ponta e a de bens começa a estabilizar. Essa mudança de bens para serviço já está acontecendo. Acredito que vai ocorrer em menor escala do que alguns economistas previam, mas é um fenômeno que está acontecendo", frisou.

"Manter a inflação ancorada é fundamental em momentos de choques sucessivos", disse.

O presidente do BC ressaltou ainda "surpresas negativas" em preços administrados. "A crise hídrica gerou reprecificação da inflação de curto prazo com a mudança das bandeiras e é esperado um aumento ainda maior", avaliou.

Segundo ele, a estratégia do governo é encarecer o preço da energia para evitar o racionamento.

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