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BC sinaliza possibilidade de alta mais forte dos juros para segurar inflação

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A divulgação da maior surpresa inflacionária em pelo menos 12 meses levou o Banco Central a sinalizar a possibilidade de um aperto monetário mais forte neste ano para conter a alta de preços.

A manifestação do BC acompanha o movimento das taxas de juros no mercado financeiro e vem após críticas do próprio governo à condução da política monetária.

Nesta segunda-feira (11), o presidente do BC, Roberto Campos Neto, disse que a inflação no Brasil está "muito alta" e que o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) em março foi uma "surpresa" para a autoridade monetária.

A inflação tem surpreendido economistas do setor público e privado desde o início de 2021. Inclusive com críticas à demora na reação dos bancos centrais no Brasil e no exterior.

Nas últimas 12 divulgações, o IPCA ficou acima das estimativas do mercado em 8 ocasiões. O maior desvio foi em relação ao índice de março deste ano, que ficou em 1,62%, ante uma projeção de 1,35%, segundo analistas consultados pela Bloomberg --uma diferença de quase 0,30 ponto percentual. Foi a maior inflação para o mês desde o início do Plano Real.

Em 11,30% no acumulado em 12 meses até março, o IPCA encontra-se distante da meta de inflação perseguida pelo BC neste ano. O valor fixado pelo CMN (Conselho Monetário Nacional) para 2022 é de 3,5% --com 1,5 ponto percentual de tolerância para cima e para baixo.

"A gente teve um índice mais recente que foi uma surpresa. A gente estava vendo uma velocidade da passagem do combustível para a bomba mais rápida e, por isso, esse próximo índice seria um pouco maior e o próximo [abril] um pouco menor. Parte foi isso, mas houve outros elementos, como vestuário e alimentação fora do domicílio, que vieram uma surpresa grande", afirmou o presidente do BC nesta segunda.

De acordo com Campos Neto, a instituição "está analisando a surpresa [na inflação] para ver se muda alguma coisa na tendência" para a política monetária. "A gente vai olhar, analisar os fatores que estão gerando essas surpresas inflacionárias e vai comunicar isso num momento que for mais apropriado", disse.

Em 16 de março, o Copom (Comitê de Política Econômica) do BC elevou a Selic (taxa básica) em 1 ponto percentual, de 10,75% para 11,75% ao ano. Para a próxima reunião, em maio, o colegiado sinalizou uma nova alta da mesma magnitude.

Em março, o presidente do BC tinha indicado que o próximo ajuste seria a última elevação na taxa de juros, encerrando o ciclo do aperto monetário com a Selic em 12,75% ao ano.

Desde a semana passada, porém, analistas do mercado começam a considerar que a elevação da Selic não vai parar de subir quando chegar ao teto previsto pelo BC.

Entre o fechamento do mercado na última quinta-feira (7) e o fim da tarde desta segunda, os contratos de juros DI (Depósitos Interbancários) com vencimento em janeiro de 2023 passaram de 12,75% ao ano, na véspera, para 13,85%. Para 2025, de 11,53% para 11,98%.

"Acredito que o mercado pode estar colocando na conta uma possível chance de o Banco Central voltar atrás na decisão de parar com a subida dos juros em junho", comentou Marcelo Oliveira, fundador da empresa de tecnologia e educação financeira Quantzed.

Essa avaliação, no entanto, não é unânime.

Rafaela Vitória, economista-chefe do banco Inter, afirma que a surpresa no IPCA de março não caracteriza uma situação de descontrole inflacionário e destaca alguns fatores que vão contribuir para reduzir as pressões sobre os preços nos próximos meses.

Entre elas, a antecipação do fim da taxa extra na conta de luz e uma nova composição de dólar e preço de petróleo que permitiria à Petrobras reduzir o preço da gasolina e do diesel. Por isso, mantém a projeção de um último aumento dos juros em maio.

"Quando os choques são muito fortes, a gente corre o risco de ter surpresas inflacionárias. Principalmente quando vem de uma alta de combustíveis. Mas a gente não mudou nossa posição, porque há surpresas desinflacionárias pela frente", afirma.

Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos, afirma que o BC pode avançar mais nos juros, mas não vê a instituição chancelando as taxas de mercado totalmente. Segundo ele, boa parte da inflação é importada e não se pode colocar a culpa no BC por perder o teto da meta de inflação pelo segundo ano seguido.

"Ele [Campos Neto] já faz um recuo na sua posição, agora aceitando que provavelmente vai ser necessário ir um pouco além dos 12,75%. Mas não acho que essa queda de braço entre BC e mercado vai pender totalmente para o lado do mercado, que vai ficar acima de 14%, que vai continuar subindo além de junho", afirma.

O estrategista da RB diz que a surpresa inflacionária se explica muito pela forma como o mercado faz suas projeções, com um componente muito forte do comportamento em anos anteriores.

"Mas desde a pandemia o comportamento da inflação vem se diferenciando muito do pré-pandemia. E quando parece que vai se normalizar vem o conflito na Ucrânia bagunçando mais um pouco."

O Itaú espera que o Copom continue subindo a taxa Selic até 13,75% ao ano.

A disparada da inflação se deu em praticamente todo o mundo. Primeiro por fatores relacionados à pandemia, como a interrupção da produção de componentes e produtos acabados. Depois, pelos gargalos provocados pela guerra na Ucrânia.

No Brasil, que tem uma das maiores taxas de inflação do mundo, houve ainda o agravante da crise de energia e da desvalorização do câmbio em 2021.

O Banco Central brasileiro foi um dos primeiros a iniciar um ciclo de alta de juros, em um movimento com intensidade superior ao de seus pares. Mesmo assim, não escapou de críticas.

Na semana passada, o ministro Paulo Guedes (Economia) afirmou que "os bancos centrais no mundo inteiro dormiram ao volante", mas que o BC brasileiro "acordou primeiro".

No dia seguinte, um integrante da equipe econômica ouvido pela Folha ressaltou que o BC passou boa parte de 2021 com juros reais negativos (taxa nominal abaixo da variação da inflação), o que acabou estimulando o aquecimento da economia e abriu caminho para aceleração dos preços.

A inflação tem sido vista dentro da própria ala política do governo como um fator negativo para a campanha do presidente Jair Bolsonaro (PL) à reeleição neste ano.

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