SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O dólar fechou em leve alta de 0,12% nesta segunda-feira (27) e renovou o recorde nominal (sem contar a inflação) pelo quarto pregão seguido, a R$ 5,6680, segundo cotação da CMA. Considerando a inflação brasileira e americana, o recorde real do dólar ainda é de 2002, quando a moeda tocou os R$ 4, que hoje seriam R$ 7,86 corrigidos pela inflação dos dois países. O pregão foi de alta volatilidade, no qual a moeda chegou a cair para R$ 5,53 pela manhã, mas voltou a ganhar força ao longo do dia, chegando ao pico de R$ 5,7250 por volta de 16h15. Nesta sessão, o Banco Central vendeu US$ 600 milhões em leilão da moeda à vista e ofertou 20 mil contratos de swap tradicional, que totalizam US$ 1,5 bilhão. Na última sexta (27), a divisa chegou a R$ 5,7450 coma saída de Sergio Moro do governo de Jair Bolsonaro, mas fechou a R$ 5,66. "A incerteza sobre o futuro do nosso governo gera essa volatilidade. Infelizmente a confiança em nossa economia está cada dia pior. Enquanto o governo não passar nada pelo Congresso e efetivamente mostrar que ainda tem uma base capaz de aprovar as reformas, o fantasma gerado pela saída do Moro e a desconfiança do mercado continuará", afirma Fabrizio Velloni, chefe da mesa de câmbio e sócio da Frente Corretora. Em seu pronunciamento sobre a saída do governo, Moro levantou acusações contra o presidente. Segundo a colunista da Folha de S. Paulo, Mônica Bergamo, o ministro Celso de Mello, do STF (Supremo Tribunal Federal), deve autorizar nas próximas horas a abertura de um inquérito para apurar tais acusações. A saída de Moro também fortaleceu os rumores de que o ministro da Economia, Paulo Guedes, também pediria demissão. Para assegurar a permanência de Guedes no governo, Bolsonaro disse nesta segunda que o ministro é o "homem que decide economia". "O homem que decide economia no Brasil é um só, chama-se Paulo Guedes. Ele nos dá o norte, nos dá as recomendações e o que nós realmente devemos seguir", disse Bolsonaro após uma reunião no Palácio da Alvorada com Guedes, com a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, com o chefe do Banco Central, Roberto Campos Neto, e o ministro da CGU (Controladoria-Geral da União), Wagner Rosário. Na última semana, o plano de retomada econômica, o Pró-Brasil, que prevê o uso de recursos públicos para obras de infraestrutura, foi alvo de críticas de Guedes, que não participou de sua concepção, sendo contrário ao aumento de gastos públicos. "Estamos em um ambiente muito ruim com essa crise política nesse contexto de pandemia da Covid-19, o que faz o real deteriorar mesmo em um dia positivo", afirma Cristiane Quartaroli, economista do banco Ourinvest. No exterior, Bolsas tiveram um dia de altas. No Brasil, o Ibovespa subiu 3,8%, a 78.283 pontos. Nos EUA, Dow Jones e S&P 500 tiveram alta de 1,5%, e Nasdaq, de 1%. "Por mais que o dia seja positivo nos mercados externos, o contexto geral ainda é de aversão a risco e investidores buscam proteção, trocando investimentos mais agressivos, como em emergentes, para ativos menos arriscados e mesmo em dias positivos, essa macrotendência não é vencida. Há uma forte busca por dólar", diz Ilan Arbetman, analista da corretora Ativa. Além do cenário negativo, a Selic em 3,75% ao ano e a perspectiva que ela caia para 3% também aumentam a pressão sobre o real devido ao carry trade. Nessa prática de investimento, o ganho está na diferença do câmbio e do juros. Nela, o investidor toma dinheiro a uma taxa de juros menor em um país, para aplicá-lo em outro, com outra moeda, onde o juro é maior. Com a Selic na mínima histórica, investir no Brasil fica menos vantajoso, o que contribui com uma fuga de dólares do país, elevando assim sua cotação. Na Bolsa, o destaque negativo foi da Embraer. As ações da fabricante brasileira de aviões caíram 7,5%, a R$ 7,66, após o acordo de compra da área de aviação civil pela Boeing ser cancelado no sábado (25). Os papéis chegaram a cair 16,5% pela manhã, acionando o leilão de ações -paralisação das negociações do papel, quando as ordens de compra e venda são suspensas por cinco minutos. O leilão pode ser acionado em diversos momentos do pregão, a depender da volatilidade do papel. "Para a companhia brasileira, a situação reforça nossa visão negativa, visto que os pedidos de aeronaves continuam aquém do esperado e a joint venture com a Boeing poderia trazer certo alívio financeiro para a companhia. Com isso, não descartamos uma possível necessidade de capitalização da companhia para suportar o período adverso", diz relatório da Guide Investimentos. "Agora, a empresa volta a individualizar seus desafios, sendo os dois mais latentes a fraca demanda por conta do Covid-19 e a concorrência mais estruturada, como a Airbus, que fechou recente parceria com a Bombardier", afirma Arbetman, da Ativa.
