DUBLIN — Não está claro ainda se o Reino Unido e a União Europeia serão capazes de chegar a um acordo sobre garantias escritas para evitar uma fronteira dura na Irlanda do Norte a tempo do prazo marcado para a segunda-feira, disse o ministro de Relações Exteriores da Irlanda, Simon Coveney, neste domingo. Mas ele disse estar esperançoso que uma reunião entre a primeira-ministra britânica, Theresa May, e o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, na segunda-feira, criará impulso em direção a um acordo a tempo da cúpula da UE marcada para os dias 14 e 15 deste mês para permitir que se avance para negociações sobre as futuras relações comerciais do Reino Unido com o bloco.
"A esperança é que essas reuniões (de segunda-feira) resultem em um impulso que seja levado para a cúpula dos líderes na semana seguinte... e possa permitir que esse processo de negociação do Brexit se abra para uma nova fase dois da discussão", disse Coveney à rádio RTE.
Indagado se esperava um acordo sobre um texto de garantias escritas dadas pelo Reino Unido sobre a questão, na manhã de segunda-feira, Coveney disse: "Não vamos correr antes que possamos caminhar aqui. Obviamente gostaríamos que esse seja o caso".
Enquanto isso, criadores de puros-sangues irlandeses começam a se preocupar com o Brexit. O setor, que gera mais de € 1,8 bilhão (mais de US$ 2,1 bilhões) e cerca de 30 mil empregos, se pergunta que consequências terá a saída dos britâicos da União Europeia sobre suas exportações para o Reino Unido, seu principal mercado. A criação de puros-sangues é um dos poucos setores em que a Irlanda por se vangloriar de ser um dos melhores do mundo.
O maior motivo de inquietação é o possível regresso de uma fronteira entre a Irlanda e o Reino Unido, o que poderia ter um forte impacto para as duas economias, atualmente muito conectadas.
"No campo, (a criação de puros-sangues) cria muitos empregos. Assim, tudo o que pode afetá-la é muito preocupante", afirma Harry McCalmont, proprietário de Norelands Stud, um rancho de gado irlandês de primeira classe.
A preocupação é palpável, e o assunto estava na boa de todos na semana passada na Goffs, a maior casa de venda de cavalos na Irlanda, onde compradores de todo o mundo gastaram € 41 milhões para ficar com os espécimes mais bonitos. O evento deu lugar uma ferrenha disputa por um potro do Haras Galileo, que um comprador americano anônimo adquiriu por € 1,1 milhão.
Mas a alegria do momento não escondeu a ameaça de Brexit no setor. Para McCalmont, a decisão britânica de deixar a UE encerrará o acordo entre a Irlanda, o Reino Unido e a França que regem a livre circulação de cavalos entre os três países. Quando o Reino Unido sair do mercado único e da união aduaneira, os cavalos podem estar sujeitos a controles de passaportes e seus transportes atrasados nas fronteiras.
"Não prevemos nenhuma mudança entre a Irlanda e a França, mas o problema é que temos que atravessar a Inglaterra [por razões logísticas]. Então, se houver uma fronteira real, haverá muita papelada, burocracia e talvez direitos aduaneiros", diz McCalmont.
Segundo dados da empresa de auditoria Deloitte, a Irlanda destinou € 169 milhões para a vendas de cavalos para a Inglaterra em 2016, ou seja, metade do valor obtido em leilões de raças irlandesas.
"Embora a Irlanda, sem dúvida, ocupe uma posição de liderança na Europa, seu domínio não é garantido", diz a Deloitte.
Milhares de fãs irlandeses, orgulhosos da reputação de seus puros-sangues, vêm todos os ano, em março, ao "Cheltenham National Hunt Festival" para ver como os melhores cavalos irlandeses enfrentam seus rivais ingleses.
"A criação nos dá muito prestígio, somos o terceiro maior produtor de potros de raça pura no mundo", diz McCalmont.
Mas, com o Brexit, algumas das grandes operações de vendas podem ser feitas no Reino Unido para evitar possíveis taxas de alfândega.
O presidente da Goffs, Henry Beeby, denuncia, por sua vez, a falta de clareza do governo britânico em relação às suas intenções na fronteira, uma questão-chave na primeira fase de negociação sobre o Brexit.
"Eu acho que há um sentimento geral de frustração e irritação", diz ele. "É o medo do desconhecido, ninguém quer estar no escuro", continua Beeby, pensando nos prejuízos para os pequenos agricultores, que não têm mais "do que uma ou duas éguas".
"As pessoas que fizeram campanha para a Brexit não tinham um plano preciso, e duvido que o tenham agora", critica.
Beeby acredita que os agricultores britânicos também sofrerão o impacto de deixar a UE.
"Eles não podem contar apenas com pôneis ingleses porque não produzem o suficiente, precisam de importações e a maioria vem da Irlanda", lembra.
Em 2016, 9.344 potros nasceram na Irlanda, mais do que o dobro dos 4.663 nascidos no Reino Unido.
Para John Oxx, um famoso treinador irlandês que venceu duas vezes o prestigioso Prêmio Arc de Triomphe, em Paris, é um momento crucial para o setor.
"Nós testemunhamos décadas de cooperação cada vez mais estreita, a simplificação das regras das corridas e a criação. E, agora, estamos pensando na possibilidade de retroceder", lamenta.

