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Na Espanha, reforma criou vagas, mas ampliou trabalho precário

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MADRI e RIO Após anos seguidos de recessão e crescimento baixo, a economia espanhola finalmente retomou o nível de produção anterior à explosão da crise financeira internacional, há nove anos. Já são dois anos seguidos de expansão acima de 3% — 2015 e 2016 — e o avanço de 0,9% no Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre na comparação com o período de janeiro a março confirma a trajetória de alta. Um desafio, no entanto, ainda persiste: o mercado de trabalho.

A situação está melhor do que no passado — a taxa de desemprego chegou a 27,2% em 2013 e hoje está em 18,7% —, mas há 4,255 milhões de pessoas sem trabalho. Especialistas avaliam que a última reforma trabalhista, em 2012, ajudou a criar empregos, mas ampliou a ocorrência de contratos de trabalho temporários e de curtíssima duração. Entre os que trabalham, 25,8% têm contratos temporários.

— O PIB da Espanha está crescendo com força, recuperamos dois terços dos empregos perdidos na crise, mas há sombras no horizonte. Há muitas pessoas em situação de desemprego de longa duração, e a precariedade do trabalho aumentou — afirma Marcel Jansen, pesquisador da Fundação de Estudos de Economia Aplicada (Fedea) e professor da Universidade Autônoma de Madrid.

trabalho por 1 dia, 1 semana

Levantamento mostra que 40% dos contratos temporários de trabalho fechados ao longo de um ano duram menos de um mês e cerca de 25%, menos de uma semana.

— As pessoas podem trabalhar por apenas um dia. Há quem acumule até 250 contratos por ano — diz Sergi Jiménez Martin, também pesquisador do Fedea e professor da Universidade Pompeu Fabra.

A elevada rotatividade é sentida por profissionais como o venezuelano Daniel Villalobos, de 40 anos, garçom de uma cafeteria em Madri. Ele está há um ano no local, mas gasta parte do tempo treinando colegas que vêm e vão rapidamente:

— A gente encontra trabalho, mas tem muita rotatividade. Chega muita gente para trabalhar por temporada e temos que explicar o trabalho para os colegas. A indenização só é paga nos contratos por tempo indefinido.

Para Jansen, existem duas classes de trabalhadores na Espanha: os de contratos temporários — sem proteções e direitos — e os trabalhadores fixos, ainda uma herança de uma primeira reforma nos anos 1980, que liberou o uso de contratos temporários, sem mudar os fixos:

— A reforma de 2012 foi necessária, mas de eficácia desigual. A lei facilitou a contratação de trabalhadores fixos ao reduzir o custo, mas colocou um poder de negociação muito forte nas mãos dos empresários para ajustes de salários e horas. Além disso, a dualidade das classes continua.

O professor da Universidade Pompeu Fabra explica que os trabalhos temporários já existiam, mas que a reforma facilitou a criação de contratos mais curtos, com salários muito baixos.

A redução da renda é uma realidade para todos os trabalhadores, mas aparece de forma ainda mais intensa em setores como o da construção, epicentro da bolha de crédito imobiliário. A participação no PIB, que chegou a 11%, agora está em 5%. O equatoriano Francisco Manzanilla, de 53 anos, trabalha neste setor na Espanha há mais de dez anos. Ele escapou do desemprego, mas se ressente do salário menor:

— Antes ganhava € 1.300 por mês, agora fica perto de € 1.000.

Também operário da construção, Juan Carlos, que não quis dizer o seu sobrenome, que ficou um ano sem emprego na época da crise, reclama da renda menor. Conseguiu voltar a trabalhar na construção civil, mas ganha cem euros menos que antes.

Em seu processo de recuperação, a economia mudou de perfil: a construção perdeu espaço, enquanto exportações e turismo avançaram. Com a crise interna, a indústria se voltou para fora. Nesse movimento, a indústria foi favorecida pelos ajustes dos salários, de acordo com Raymond Torres, diretor de Conjuntura e Estatística da Funcas (fundação das caixas de poupança):

— A reforma não resolveu o problema estrutural dos trabalhos temporários, mas facilitou o ajuste dos salários. Isso tornou as empresas mais competitivas e ajudou as exportações, mas teve um custo social importante.

Diretora de estudos do Grupo Santander, a economista Alejandra Kindelán Oteyza destacou recentemente a importante mudança estrutural na economia espanhola, em direção a um modelo de crescimento menos baseado na construção e mais nas exportações, apesar de o desemprego ainda ser uma questão:

— A Espanha lidera a expansão da zona do euro. É um crescimento compatível com inflação baixa e superávit externo. Estamos corrigindo a taxa de desemprego, embora ainda tenhamos muito a percorrer.

O turismo avançou — favorecido pelas ameaças terroristas em outros países do Mediterrâneo —, dando espaço a trabalhadores como a búlgara Dimka Dmitrova, de 57 anos, que monta cenários com roupas de flamenco para turistas tirarem fotos na Plaza Mayor, em Madri.

— Vivo dos turistas. O trabalho é cansativo, fico muitas horas aqui, nem todos dão valor, mas ganho € 800 por mês. Pago o aluguel e mando dinheiro para minha família na Bulgária.

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