Início Esportes A Copa dos pompons
Esportes

A Copa dos pompons

Envie
Envie

O Ginásio Marvel, no bairro niteroiense de São Francisco, não é muito diferente da quadra que se espera numa escola particular. Enquanto o sol de sábado arde na Praia de Icaraí, ali perto, 38 jovens estão treinando duro. Suspensas por quartetos e trios femininos — ou até mesmo por um único homem —, erguem uma das pernas até tocar nas próprias cabeças. Tanta flexibilidade aliada à performance ousada tem motivo: eles e elas integram a seleção brasileira de cheerleading que disputará o Mundial do esporte entre os dias 25 e 27 deste mês, na Flórida (EUA). Pouco comum no Brasil, a modalidade inspirada na dança que anima equipes e torcidas é reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) desde 2016.

É coisa séria. A técnica Nayara Araújo, por exemplo, tem 24 anos e atravessa cerca de 27km para sair de casa, na Tijuca, e treinar as 19 meninas de sua equipe “all girl”, ao lado do assistente Gabriel Rogoni. E, nas palavras da atleta Júlia Lemos, trata-se do esporte “mais perigoso do mundo”:

— Nunca quebrei nada, mas já fissurei o nariz, abri o supercílio, torci os dois tornozelos e os meus dedos e tenho tendinite em várias articulações. Além disso, já cortei minha boca e língua várias vezes. Os hematomas são quase “decorações” fixas no meu corpo.

É a primeira vez que um time brasileiro totalmente feminino vai ao Mundial. O Brasil participa da competição anual desde 2015, mas apenas com o time “coed”, que mescla seis garotas e 13 homens. Ex-integrante do time misto e agora exclusiva do feminino, Júlia conta que a principal dificuldade era encontrar mulheres para a base, como são chamados os atletas que levantam outros.

— O cheerleading vai do nível 1, o mais fácil, ao 6, que tem o grau de execução mais difícil. No Mundial, disputam-se os dois últimos, mas o Brasil participa no 5 — explica Júlia, que é atleta do time Brasil desde 2015. Em 2017, a seleção ficou em 12º lugar no nível 5, vencido pelo Chile. Os Estados Unidos dominam o nível 6.

Paixão exemplar

A paixão dela pelo esporte é tão grande que Júlia pretende trocar a faculdade de biologia que cursa na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) pela de educação física. Hoje, ela ganha mais que um salário mínimo sendo treinadora de seis equipes universitárias. E também vende pela internet laços de cabelo, que as atletas usam nas competições.

Mas talvez o maior exemplo da paixão que esse esporte desperta seja Lucas Maia. Hoje, ele vive (e lucra) apenas com a modalidade. O jovem de 28 anos cresceu se dedicando à dança e chegou a ser bailarino, mas atualmente é atleta e treinador da equipe “coed”, ao lado de Leandro Rente, de 30 anos. Os dois inauguraram o primeiro ginásio dedicado a animar torcidas no Rio, o Marvel. Porém, eles ainda escutam os gracejos mais óbvios.

— Sou hétero e sempre ouvi que praticava “esporte dos pompons e dava saltinhos”. Nunca liguei para esses comentários, porque vim da dança, fiz balé, então já escutei muita coisa. Consigo me bancar, mas sei que sou exceção, porque esse é um esporte caro e sem apoio do governo ou patrocinadores — explica Lucas.

COMO FUNCIONA

Na Copa do Mundo de cheerleading, as equipes “coed” e “all girl” competem separadamente, tendo que se apresentar em dois minutos e meio, e usam roupas mais comportadas que o estereótipo popular das cheerleaders: as meninas usam pompons, mas não podem mostrar a barriga — usam vestidos até o joelho; enquanto isso, os rapazes puxam o grito de guerra brasileiro nos megafones: “Verde, amarelo, azul-anil! Vamos, Brasil”, dito em português, já que falar a língua nativa na apresentação conta pontos.

A avaliação é feita por dois árbitros. Joelhos dobrados, quedas e outros deslizes diminuem a pontuação. E cada critério pode receber de 0 a 100 pontos.

Siga-nos no

Google News