Início Esportes Argentino sobre Copa de 90: ‘O Brasil tinha um supertime, e foi inacreditável a quantidade de gols que perdeu’
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Argentino sobre Copa de 90: ‘O Brasil tinha um supertime, e foi inacreditável a quantidade de gols que perdeu’

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BUENOS AIRES — O panorama era sombrio, tão sombrio que o técnico tinha ameaçado mandar derrubar o avião da seleção antes de aterrissar de volta em Buenos Aires, caso a equipe não conseguisse chegar à final da Copa. A advertência foi lançada pelo polêmico Carlos Salvador Bilardo, após o que considerou “a derrota mais vergonhosa” da Argentina numa Copa do Mundo, contra Camarões, na estreia do Mundial de 1990.

As lesões dos jogadores se multiplicavam, começando pela grande esperança argentina, o craque Diego Armando Maradona, com problemas numa unha do pé e em um de seus tornozelos. Mergulhado nesse verdadeiro inferno astral, de repente Bilardo viu uma luz no fim do túnel: uma noiva, prestes a se casar, no hotel de Turim onde sua seleção se hospedaria.

O técnico argentino acredita que noivas dão sorte e considerou aquilo “um sinal” que antecipava uma vitória, nada mais e nada menos que contra o Brasil. A Argentina chegara arrastando-se às oitavas de final da Copa da Itália, e seu rival seguinte tinha ganhado todas as partidas. Mas Bilardo viu a noiva e voltou a ter esperanças de que sua seleção chegasse à final. A cena marcou os jogadores do time e é lembrada hoje com humor e certa melancolia por dois deles, Juan Simón e Pedro Troglio. No caso de Troglio, foi o começo de uma crença que mantém até hoje e que, garante, o ajudou a ganhar outros jogos.

— Bilardo mandou a gente falar com a noiva e dar um beijo nela. Diego (Maradona) entrou na frente, e as pessoas ficaram enlouquecidas. Beijamos a noiva e saímos — lembra Troglio, que acaba de assumir como técnico do Gimnasia y Esgrima La Plata.

Muitos anos depois, ele estava na cidade argentina de Bahia Blanca, jogando para o Gimnasia y Esgrima, que tinha o desafio de derrotar o Olimpo para passar à primeira divisão. Troglio não pensou duas vezes quando viu passar uma noiva:

— Tirei uma foto com ela, e depois ganhamos do Olimpo. Bilardo me fez acreditar em noivas.

O episódio de Turim não fez Juan Simón acreditar em noivas, mas o ex-zagueiro, que hoje trabalha como comentarista esportivo num canal de TV, se lembra perfeitamente de como Bilardo ficou entusiasmado com o casamento. Foi como se aquela noiva tivesse devolvido as energias perdidas à seleção argentina, formada por grandes nomes, como Maradona, Claudio Caniggia e Oscar Ruggeri. Muitos eram campeões de 1986, e chegaram à Itália se achando os favoritos.

— A derrota contra Camarões nos matou, foi horrível. Depois chegamos às oitavas graças ao fato de a Rússia não ter feito mais um gol, foi um sufoco. Bilardo estava furioso — conta Simón, que nasceu em 1960, como Maradona, e foi campeão juvenil em 1979 no Japão, junto ao ex-craque.

Depois de ter passado alguns anos na Europa, onde jogou em Mônaco e Estrasburgo, o ex-zagueiro retornou ao país em 1988 para integrar o time do Boca Juniors, com uma única meta na vida: ser escalado para a Copa de 1990. Bilardo finalmente o convocou em 1989, e seu sonho tornou-se realidade.

O que viria depois, comenta Simón, seria bem mais difícil:

— Chegamos à Itália um mês e meio antes do começo da Copa, e logo começaram os problemas. Maradona tinha uma lesão na unha do pé e treinava com uma chuteira que tinha um buraco na ponta, porque não aguentava a dor.

JOGADORES DE CASTIGO

A seleção imaginou que jogaria sempre em Nápoles, onde Maradona era ídolo do time local. Mas o tropeço contra Camarões obrigou uma mudança de planos, outro complicador fora do script traçado por Bilardo. Alguns jogadores cruciais da seleção, como Troglio e Caniggia, não foram escalados contra Camarões. Em ambos os casos, tratou-se de um castigo aplicado pelo técnico após entrar no quarto que os dois dividiam, às 2h da manhã, e encontrá-los jogando Nintendo, o passatempo favorito do autor do gol que eliminaria o Brasil.

— Estávamos jogando aquele do Mario Bros em que tinha de resgatar uma princesa, era um dos mais conhecidos na época. Cani era fanático. Quando Bilardo nos viu, pirou e nos deixou de fora do jogo contra Camarões — lembra Troglio, que também levou bronca por fumar no quarto: — Não sei fumar. Quando Cani me dava um cigarro, eu não conseguia engolir a fumaça. Um dia Bilardo entrou, e o quarto parecia Londres. Ele mandou chamar o Maradona, que nos fez abrir a janela.

Quando a seleção chegou a Turim, o clima estava cada vez mais tenso. Para Simón, o fator crucial para a Argentina derrotar o Brasil foi a sorte:

— O Brasil tinha um supertime, e foi inacreditável a quantidade de gols que perdeu. No primeiro tempo, os brasileiros dominaram totalmente o jogo.

Em momentos difíceis, Bilardo costumava ficar calado. E assim foi, até o momento em que o time retornou para o segundo tempo. Foram poucas e enfáticas palavras, lembra o ex-zagueiro:

— Ele nos disse assim: “Ah, uma coisinha, se forem passar a bola passem para algum jogador que não esteja usando uma camiseta amarela”.

DERROTA NA FINAL

Dada a indicação, a equipe argentina saiu a campo, e o milagre aconteceu. Na forma de uma jogada histórica entre Maradona e Caniggia, até hoje comemorada a cada 24 de junho.

— Ficamos olhando sem conseguir acreditar. Eu nem quis gritar “gol”, ainda faltavam dez minutos, e era necessário economizar energia — afirma Simón.

Após 28 anos, Troglio diz que nunca se sentiu tão “esmagado” por um adversário:

— Perdi jogos por goleada, mas nunca me senti como naquele dia.

O grande artífice do gol, o jovem Caniggia, à época com 23 anos, comemorou fazendo o que sempre fazia: jogando Nintendo.

— Cani é um cara excepcional, nunca se sentiu acima dos demais, nem depois desse gol histórico — comenta Simón, integrante do elenco que perdeu a final daquele Mundial para a Alemanha e que por pouco não havia participado do primeiro título mundial argentino, em 1978.

Ele era da seleção juvenil e participava de treinos com a equipe principal comandada por César Menotti. Como muitos jogadores que integraram seleções argentinas durante a última ditadura (1976-1983), Simón sente que foi “usado” pelo regime militar. Ele foi um dos campeões juvenis de 1979, no Japão, junto a Maradona. Na volta ao país, o governo organizou uma caravana por Buenos Aires, no mesmo dia em que desembarcava na cidade a comissão de direitos humanos da ONU. Começavam a surgir com força as denúncias sobre desaparecimento de pessoas, algo que os jogadores, garante Simón, “desconheciam por completo”. Hoje, ele percebe a utilização feita pelos militares do futebol como elemento de distração e diz lamentar ter sido parte de um show montado para esconder crimes de lesa-Humanidade.

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