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Com milhões de seguidores, atletas transformam redes sociais em plataforma para expressar seus pontos de vista

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Era 23 de julho, dez dias antes do que seria o último capítulo da novela. Mas um post em uma rede social parecia antecipar o aguardado desfecho. O zagueiro Piqué, capitão do Barcelona, compartilhara uma foto ao lado de Neymar, acompanhada da legenda "Se queda" ("Fica", em espanhol). Rapidamente, as palavras se tornam manchete em sites de esportes do mundo. Nas redes, o compartilhamento vinha acompanhado da interpretação: os planos do PSG se frustraram, e o brasileiro seguiria na Catalunha. O raciocínio acabou se provando equivocado, e Piqué confirmou que se tratava de um pedido, não de um anúncio. Mas as mais de 1 milhão de curtidas serviram para reforçar o poder dos atletas como produtores de conteúdo nas redes sociais.

O zagueiro se tornou um especialista nesse tipo de comunicação. Em entrevista à revista “Panenka”, declarou que poderia não dar mais entrevistas e comunicar-se com seus fãs apenas pela internet, com alcance maior: “Alguns de nós têm mais seguidores que o maior veículo de imprensa da Espanha”. É verdade: Piqué é acompanhado, no Twitter, por mais de 16 milhões de pessoas. Os quatro principais jornais esportivos da Espanha, somados, não chegam a 11 milhões de seguidores.

Piqué vira notícia, comenta a notícia e se transforma em notícia outra vez. Nos últimas dias, essa retroalimentação tem sido movida por duas pautas. Ferrenho defensor da independência da Catalunha, o zagueiro revelou seu lado mais sensível diante das câmeras de TV, quando chorou ao criticar a violência policial contra os separatistas. Mas é nas redes que se mostra mais ativo. Desde quando convocou o povo a votar, no dia 28, seus perfis viraram palanque. Anteontem, quando um veículo local publicou que uma empresa do jogador tinha sede em Madri, ele rebateu: “Fica na Catalunha”. Também há espaço para a vida pessoal. Diante de rumores de que se separaria da mulher, a cantora Shakira, Piqué foi a um ensaio e compartilhou o registro. Também comentou com beijos e corações um vídeo em que a esposa canta.

O público que acompanha os atletas na internet é expressivo. O português Cristiano Ronaldo tem quase 300 milhões de seguidores, entre Facebook, Twitter e Instagram. Neymar, por sua vez, tem 177 milhões, um pouco à frente do argentino Lionel Messi, com 173 milhões. Embora os jogadores de futebol ostentem números mais expressivos, há legiões interessadas em esportistas das mais variadas modalidades. Maior nome da NBA, LeBron James é acompanhado por mais de 95 milhões de pessoas; o boxeador Floyd Mayweather, por quase 41 milhões; e o tenista Roger Federer, por mais de 28 milhões.

Mas ter um alto número de seguidores não basta para ser um influenciador. O atleta precisa demonstrar personalidade. Neste quesito, Felipe Melo é imbatível. Uma pesquisa do Ibope encomendada pelo canal “Sportv” revela que o jogador do Palmeiras é o mais influente em atividade no Brasil. Fred e Robinho, do Atlético-MG, Luís Fabiano, do Vasco, e Diego, do Flamengo, completam as cinco primeiras posições. O ranking é definido por uma plataforma que mapeia tudo o que é publicado nas redes. Muito importante nessa equação é o que o diretor executivo do Ibope, José Colagrossi, chama de “sentimento”, espécie de resposta do público ao que é postado.

— Esconder suas opiniões não gera interesse. Por outro lado, se a cada vez que abrir a boca, você for contestado, existe um efeito contrário, que é a perda de credibilidade. As pessoas vão entender que você só abre a boca para chamar atenção. É preciso um equilíbrio — explica Colagrossi.

Acostumado a ver suas opiniões repercutirem, Felipe Melo teve um ano especialmente agitado. Depois de se desentender com o técnico Cuca, demitido anteontem pelo Palmeiras, foi afastado do elenco. Nos dias seguintes, o dia a dia do volante, que treinava separadamente, tornou-se uma espécie de reality show — a cada publicação, uma tentativa de decodificar para quem seria a indireta da vez. Antes, Felipe recebeu respostas as mais extremas quando declarou apoio ao deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), possível candidato à presidência no ano que vem e dono de posições políticas que polarizam.

— Sou autêntico e não tenho medo disso. Gosto de me posicionar. Confesso que, muitas vezes, postei sem pensar, mas isso me coloca em um filme onde os textos não são pensados. Se eu quisesse virar o que não sou, seria fácil — justifica o jogador.

felipe melo: um caso pensado

Parte do sucesso de Felipe Melo, para o bem ou para o mal, está associado ao perfil explosivo, traço que não é fruto do instinto, mas de algo pensado:

— Vi um comentário do (colunista do GLOBO) Carlos Eduardo Mansur, que dizia que eu tinha duas opções na carreira: solidificar a imagem de pitbull ou ressaltar a qualidade do meu futebol. Ele percebeu muito bem, e eu optei pela imagem de pitbull. Após essa estratégia, houve um salto nas mídias sociais.

Apesar de jogadores como Piqué e Felipe Melo ganharem cada vez mais força nas redes, Colagrossi destaca o papel dos veículos tradicionais na disseminação da informação:

— Quando um jogador dá um depoimento na rede, ele decide o que publicar. Isso não substitui a entrevista, onde ele não tem o poder de escolha sobre o que responder. As mídias sociais e tradicionais se complementam.

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