SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Por que nunca podemos comemorar?", pergunta uma torcedora do Sunderland na saída do estádio, após mais uma derrota de seu time. A cena pode ser vista no episódio de encerramento da segunda temporada da série "Sunderland Até Morrer", disponível na Netflix, e resume o calvário que o clube tem vivido nos últimos anos, com dois rebaixamentos seguidos que o levaram da Premier League à terceira divisão do futebol inglês. Todo esse processo está devidamente documentado pelas lentes da produtora Fulwell 73, cujos sócios são curiosamente torcedores do Sunderland, que pensavam na série como a chance de mostrar o renascimento de uma das mais tradicionais equipes da Inglaterra. O produto, porém, saiu melhor que a encomenda -para quem não torce pelo clube, é claro. Se na primeira temporada o que se vê é o caos total de uma instituição mal administrada e o descenso para o terceiro escalão, na segunda o drama é construído pela possibilidade real de voltar à segunda divisão. A chegada de um novo dono, Stewart Donald, que compra o Sunderland por 40 milhões de libras, devolve esperança à cidade, que responde com entusiasmo à tentativa dos novos dirigentes de recolocar o clube em um patamar mais respeitável. Logo no primeiro jogo da liga sob a nova administração, a vitória por 2 a 1 sobre o Charlton, em casa, é conquistada com um gol aos 51 minutos do segundo tempo. Em um jogo no "Boxing Day" (26 de dezembro), a diretoria -cujas ações são centralizadas na figura do diretor Charlie Methven- estabelece a ousada meta de colocar mais de 40 mil torcedores no Stadium of Light. E consegue, com 46.039 espectadores, recorde na terceira divisão. Os feitos e sucessos da primeira metade da temporada seriam o prêambulo ideal do renascimento, exceto pelo fato de que, quanfo foi lançada a série, já se sabia como a temporada havia terminado. O que não tira a emoção da segunda temporada, desenvolvida sob a tônica de proximidade da glória. Como já havia sido na primeira parte, a produção manteve o padrão de acesso aos bastidores que consiste no grande mérito de "Sunderland Até Morrer" em comparação com produções semelhantes sobre clubes de futebol, nas quais a porta do vestiário e dos escritórios da diretoria marcam o limite onde as câmeras podem entrar ou não. Um dos pontos que ilustra essa abertura é o episódio em que o dono e presidente Stewart Donald negocia a contratação de um jogador até os minutos finais do último dia da janela de transferências. Conversas com a diretoria, ligações com o técnico da equipe, Jack Ross, tudo isso é documentado e, aparentemente, sem filtro. "Eu quero um artilheiro e não consigo contratar um", diz o presidente. "Sim, o Real Madrid também", afirma o diretor de futebol a ele. "Eu não ligo para o Real Madrid", responde Donald. Entusiasta da ideia de contar com o centroavante norte-irlandês Will Grigg, ele aumenta sua proposta inicial de 1 milhão de euros para 3 milhões e, já com a janela de transferências se encerrando, consegue fechar o negócio. A chegada de Grigg ao Sunderland se transforma na contratação mais cara da história da terceira divisão. Ao final da temporada, o atacante disputaria 11 partidas, incluindo os playoffs, e marcaria apenas um gol. O Sunderland, como há muito tempo não ocorria, faz duas visitas ao mítico Estádio de Wembley, em Londres, casa da seleção inglesa e das finais de copas nacionais. A primeira delas na final do Checkatrade Trophy, que réune os clubes da terceira e quarta divisões. No meio do caminho, a equipe vence o clássico regional contra o Newcastle, que disputa a competição com um time sub-21. E isso pouco importa para os torcedores do Sunderland. Na final da taça, que reuniu mais de 85 mil torcedores, o time do nordeste inglês perde para o Portsmouth, nos pênaltis, depois de sair na frente do placar e manter o 1 a 0 até os 37 minutos do segundo tempo. Já no final da temporada, o clube termina a liga em quinto e se classifica para os playoffs. Nas semifinais, passa justamente pelo Portsmouth, vingando-se da queda na decisão do Checkatrade Trophy. O último jogo, contra o Charlton, marca a segunda e última visita a Wembley e encerra a segunda temporada da série com a impressão de que, se os responsáveis pela produção tentassem prever um roteiro tão dramático, provavelmente não conseguiriam. O Sunderland abre o placar aos 5 minutos de jogo. Aos 35, o Charlton, outro clube que circulou pela Premier League neste século, empata a partida. O gol da virada acontece como nas melhores crônicas de ficção sobre futebol: o zagueiro Patrick Bauer cabeceia, a bola rebate na defesa do Sunderland e volta para ele mais uma vez, que chuta para o gol, marcando o gol após desvio em outro defensor rival. Virada aos 49 minutos da etapa final e vaga na segunda divisão inglesa. "Por que nunca podemos comemorar?", questiona a emocionada torcedora do Sunderland, que tocou o céu com as mãos nas duas idas a Wembley em um ano, viu o estádio lotar para um jogo de terceira divisão e, de certa forma, recuperou o brilho nos olhos de ver sua equipe jogar. Essa esperança de resgate do clube, contudo, parece ter ficado no meio do caminho da viagem de volta para o nordeste do país. Na atual temporada, interrompida pela pandemia do coronavírus, os torcedores já pediam pela saída do dono Stewart Donald. Will Grigg, a cara contratação feita pelo presidente, tem apenas oito gols em 49 jogos pela equipe, que ocupa a sétima colocação na tabela, fora da zona dos playoffs. A produtora Fulwell 73 afirmou que não havia iniciado nenhuma gravação depois da segunda temporada, mas não descartou começar uma terceira. Material dramático, tratando-se de Sunderland, não faltará.
