Marcus Vinícius Freire, ex-diretor executivo de esporte do Comitê Olímpico do Brasil (COB), se disse surpreso com a prisão de Carlos Arthur Nuzman, por fraude ligada à escolha do Rio como sede dos Jogos de 2016. O executivo que se afastou do cargo em setembro comenta que desde então não teve mais contato com o ex-patrão, que nesta quinta-feira conseguiu habeas corpus para deixar a prisão em Benfica. Para ele, que hoje é CEO do Fluminense, o esporte olímpico ficou manchado, o Brasil desacreditado e que não há momento mais propício para uma resposta: os dirigentes de confederações e novo presidente do COB, Paulo Wanderley, precisam iniciar uma nova história, incluindo mudanças nos estatutos de suas entidades. E mais: ele afirma que a dívida do Comitê Rio-2016 é muito maior do que o valor divulgado pelo órgão: segundo balanço auditado o valor chega a R$ 132 milhões.
Fiquei. Participei da campanha mas não profundamente, entrei depois que o COB ganhou os Jogos Olímpicos, em 2009 (antes era voluntário; no total trabalhou 18 anos na entidade). E nunca ouvi falar nessa história de pagar por voto até porque éramos os mais pobres dos quatro candidatos. Era mais fácil Japão ou EUA pagarem. Mas, me entristece... Pô, sou gaúcho, cheguei no Rio com 13 anos. Meu pai ligou para o Nuzman e falou: “Meu filho tá na rodoviária. Estou mandando para a seleção infanto (de vôlei). Cuida do cara aí!” Espero que ele consiga se defender, mas o dia a dia tem mostrado o pior, né? Porque tem saído outras coisas... Acho que vai complicar.
Matematicamente sim. A estratégia do Brasil era salvar na primeira rodada. Esse corte seria o pior dos mundos. E na última votação tínhamos 20 votos a mais. Teríamos de ter comprado mais do que um voto.
Tenho minhas dúvidas.
Não sei te responder. Não estou dizendo que não tinha necessidade. Estou dizendo que, quando se olha a matemática, ou você compra 50 ou não faz sentido. Não foi uma diferença de dois votos...
Mas isso é verdade absoluta. Ele conseguiu alinhar os malucos todos, Lula, Cabral, Paes, Ministério... Só esse cara. A investigação em relação ao Nuzman é a compra de voto. Não dá para juntar com tudo o que Cabral responde, por exemplo. Se o Brasil não ganhasse a Olimpíada, o roubo, de quem quer que fosse, rolaria de outro jeito.
O problema é que hoje a gente tem uma mancha no que foi feito. Essa mancha pode ser muito maior ou não. Vamos ver. E todo mundo bota uma interrogação mesmo, até no que fizemos de bem feito. Mas, para mim, manchou o país inteiro e principalmente Rio-2016 e os governos.
Não tenho essa sensação. Tenho certeza que eu e meu time entregamos, independentemente de três medalhas a menos da meta, nosso trabalho. Tínhamos sim uma meta e chegamos muito perto. Criamos uma marca nova e o Time Brasil conseguiu ter a sua identidade, unindo atletas e torcida. Vivemos para os atletas e eles reconhecem esse trabalho. Tenho orgulho do que foi feito.
Neguei um monte de coisas no Time Brasil. Uma porrada. Não tenho nada a ver com Rio 2016, pelo amor de Deus! Mas neguei um porrada de dinheiro. Se falar com os 29 presidentes de confederação, 25 vão dizer que sou o maior filha da puta. Era tipo assim: “Quer isso aqui sem concorrência? Não pago”. Ou “Contratar fulano assim? Não contrato. E essa empresa? Não leva”. Ninguém no Time Brasil assinava.
Para mim, ela é muito maior do que estão se falando. E não acho. O COB será o herdeiro dessa dívida.
A solução é aumentar o fórum de votação. Mas não dá para colocar todos os atletas para votar. Para mim, o critério mais justo é com representantes. Se a comissão de atletas tem 20 integrantes, todos os 20 votam. No COB tem de ter a comissão de clubes. Ou seja, mais x votos. E a mesma coisa com os treinadores. Não adianta ouvir os atletas e não ouvir Bernardinho e Zé Roberto, por exemplo. Acho que deveriam ter voto também, por meio de uma comissão que pode ser multidisciplinar, incluindo membros de comissão técnica, como preparador físico ou médico. Tenho dúvida, mas poderia ter ainda a comissão de arbitragem. E não tem como não contar com as confederações. A hora que se faz isso, passa a ter 100 caras votando. E o negócio fica mais espalhado, não há núcleos. Mas é preciso ter a discussão com todos os stakeholders. Atleta vai fazer evento? Quem vai organizar campeonato carioca, se a federação não tem direito a voto? É preciso ter um equilíbrio de interesses. Vale para COB, Comitê Paralímpico Brasileiro, Congresso Brasileiro de Clubes, confederações e federações.
Só isso não resolve nada. Não adianta ter 100 caras para votar e, na hora de olhar para quem pode ser eleito... São os mesmos. É preciso mudar os dois: o bloco que vota e o que tem direito à eleição. Na minha opinião, para ser candidato tem de ter um CV mínimo. Ou prestou serviço para a seleção como jogador por dez anos, ou tem três títulos mundiais, ou foi treinador por quinze anos, ou foi presidente de federação por outros x anos... Acho que cada confederação deve desenhar um formato mas esse cara precisa ter tido uma ligação mínima com aquela modalidade.
A vela, que não terá clube nem federação com direito a voto no próximo pleito, saiu como herói nesse caso. Mas é porque tem uma particularidade, que são as classes. Posso ir num Mundial de Star sem a confederação ou a federação. Basta ser filiado mundialmente à classe Star, pego meu barco, me inscrevo e vou. Parece que é a solução para tudo. Mas não é. No caso das confederações, as federações que organizam os campeonatos, precisam votar também. Não tem não como não tê-las. Todo mundo também dá como exemplo o atletismo (CBAt), em que os medalhistas olímpicos votam. É uma ótima ideia mas não é tão independente assim. Os medalhistas estão incluídos no Programa Heróis Olímpicos da Caixa Econômica Federal, onde recebem apoio financeiro mensal vitalício. Não acho legal dar o direito de voto para quem recebe da entidade.
NO COB, não sei. O problema para mudar um estatuto, e isso vale para as confederações e clubes também, é que quem mexe no estatuto é quem está sentando dentro. E quem está sentado dentro, normalmente, não quer mudança. Quem vai mexer no estatuto do COB daqui a cerca de um mês são os 30 presidentes de confederações. Que dificuldade...
Podem ouvir quem quiser mas quem vota está nesse bolo. O equilíbrio entre os agentes não se faz presente nesse tipo de eleição. Essa turma precisa estar muito pronta, aberta, ou um cara de cima muito forte, para mexer. O mais fácil é quando entra um interventor, caso da CBDA (Esportes Aquáticos). O cara não tem essa amarração e vai para a Justiça e diz quem acha que tem direito a voto. Acabou incluindo os clubes. Saiu fora e tudo bem. Dentro da engrenagem é mais difícil.
Acho que esse é o momento para se ter essa mudança. É o momento exato. É o momento do Brasil, não só do esporte. Hoje as pessoas não aceitam mais esse formato.
A questão é que se fala em ter “todos os atletas”. Não pode. Desequilibra de novo. Acho que tem de acontecer. Se vai acontecer, depende de algumas instituições. Em algumas sim, em outras vai demorar mais um pouco. Também acho que o mercado pode forçar isso.
Se o Ministério do Esporte, por exemplo, colocar a seguinte situação: “Se não tiver essa representatividade não vão rolar mais convênios”. O Banco do Brasil e a Caixa Econômica também podem condicionar seus patrocínios a entidades com estatutos mais equilibrados. Daí, terão de mudar para poder ter vida. Esses agentes precisam entrar nessa discussão para mudar essa estrutura.
Foi combinado. Quando entrei em 2009 tinha data de saída, após a Olimpíada. Não briguei com o Nuzman. O que aconteceu é que ele não aceitava a minha posição, achava que ia pegar mal. Ia ficar no COB fazendo Sul-americano em Quito? Para quem fez a Olímpíada com o Time Brasil daquele tamanho? Não cabe não meu jeito de ser.
Criei mesmo. Não chegar na meta faz parte. Várias empresas não batem meta e é assim que funciona a vida. Sem meta, como está hoje, é que não existe. Não ter meta para Tóquio-2020 é um absurdo. Fluminense não tem meta para o Brasileiro, Carioca e Sul-americana? Sacanagem, não preciso nem estar aqui. Pelo que vi no futebol, em geral, os clubes não tem meta, não tem missão. Tem lá seus valores, mas onde quer chegar? Ganhar campeonato, ganhar do Flamengo? Não pode ser só isso.

