“A galera não quis se pronunciar, pois é arriscado para eles. Tem igreja, mas não podem divulgar”. As frases, enviadas através de uma mensagem de texto por um jogador de futebol, escondem nomes, times e localizações precisas, mas revelam o drama vivido por atletas brasileiros na Rússia, onde praticam o cristianismo de maneira quase clandestina às vésperas da Copa das Confederações, com início no próximo 17 de junho, e a pouco mais de um ano da Copa do Mundo de 2018.
Os jogadores de futebol, de futsal, snowboarders e lutadores de jiu-jítsu temem ser reconhecidos em cultos, principalmente da igreja brasileira Bola de Neve Church, e enquadrados como possíveis suspeitos devido ao pacote de medidas contra o terrorismo aprovado pela Duma do Estado e sancionado em 2016 pelo presidente Vladimir Putin. Com objetivo de deter o avanço do islamismo, entre outros pontos, as restrições atingiram parte das demais religiões, em minoria na Rússia dominada pela Igreja Ortodoxa.
A reportagem do GLOBO decidiu, a pedido do médico e pastor brasileiro Felipe Campos Sestaro, manter o anonimato dos frequentadores da Bola de Neve Church. Há 12 anos na Rússia, Sestaro, no entanto, busca um equilíbrio para os dois lados e resolveu se pronunciar.
Natural de Santos, Sestaro seguiu a vocação religiosa sem abandonar a medicina. Fundada na década de 1990 no Brasil pelo pastor e surfista Rinaldo Luis de Seixas Pereira, a Bola de Neve foi associada primeiramente ao surf. Seu púlpito é uma prancha. Na Rússia, a maioria dos frequentadores é formada por jogadores de futebol. Como naquele país há apreço pelos esportes de inverno, a prancha de surf foi trocada pela de snowboard. A foto que ilustra esta reportagem é de uma célula de São Paulo, opção que evita o possível reconhecimento dos religiosos.
Sestaro se orgulha de poder formar bem mais que um time de futebol quando todos estão reunidos em uma das sete células espalhadas por Moscou, São Petersburgo (sedes da Copa das Confederações) e Kursk, fato cada vez mais raro devido ao controle do estado russo sobre as reuniões para fins religiosos. Ainda mais, segundo ele, depois que a suprema corte da Rússia baniu a religião Testemunhas de Jeová, em abril deste ano, por ser apontada como organização extremista. Cerca de 400 propriedades, usadas como templos, foram entregues ao governo. O grupo já fora banido por Josef Stalin na antiga União Soviética.
— Sou pastor e estou no olho do furacão. Vivo na sombra e, se eu for denunciado, vou preso. Vivo apreensivo, na marginalidade. Mesmo assim, sou cauteloso em julgar — diz Sestaro.
A denúncia pode partir de qualquer pessoa e jogadores e demais atletas praticantes do cristianismo exercem uma fé velada, evitando manifestações públicas em campo, quadras, tatames e fora deles. Redes sociais, ligações telefônicas e mensagens de texto podem ser um estorvo, porque a lei determina que empresas de telecomunicações armazenem dados da população por até seis meses.
O pastor conta que, em um culto realizado em São Petersburgo, onde será realizada a final da Copa das Confederações, no dia 2 de julho, as autoridades foram chamadas, mas eles conseguiram escapar. Em abril deste ano, um ex-militar russo convertido ao islã havia sido apontado equivocadamente com um dos suspeitos do atentado à estação Spasskaya do metrô de São Petersburgo, que deixou 15 mortos.
— Não podemos atrair a atenção dos vizinhos, é arriscado. Em São Petersburgo, chamaram a polícia para nos prender. É real. Eu posso ser preso ser for denunciado — revelou o pastor.
Sestaro tem reunido em sua célula brasileiros, angolanos, moçambicanos e sul-americanos e russos. Os jogadores são importantes difusores e ajudam a aumentar a Bola de Neve, que costumava fazer visitas a hospitais, oferecer aulas de esportes e a evangelizar nas ruas. Não mais.
— Agora, evitamos o proselitismo em orfanatos, hospitais e na rua. Este país recebeu imigrantes das ex-repúblicas soviéticas, como Cazaquistão, Uzbequistão, Chechênia... de maioria muçulmana. Enquanto os russos têm um filho, estes imigrantes teriam quatro ou cinco. O governo tenta conter o avanço muçulmano. Quase todo ataque terrorista tem uma motivação islâmica. Daí nasceria o preconceito, primeiro contra os muçulmanos, depois, contra as demais religiões — explicou Sestaro.
O professor e historiador da Universidade de Brasília (UnB), Argemiro Procópio, especialista em Rússia e terrorismo, confirma a teoria da expansão demográfica islâmica:
— A questão tem trazido problemas, de racismo inclusive, porque o russo se sente agredido, invadido. Algumas minorias religiosas correm risco de virar bode expiatório. Os brasileiros terão dificuldade, porque, além de jogadores, viramos exportadores de pastores para o mundo.
O relatório de liberdade religiosa feito no último ano pela organização internacional Aid to the church in need (ACN) confirma o momento de apreensão vivido pelas minorias religiosas na Rússia. No capítulo “Perspectivas para a liberdade religiosa”, o relatório da ACN informa:
“Persistem as dificuldades para as minorias religiosas que procuram legitimidade. Continua a haver rusgas policiais a casas e locais de culto. Os membros das minorias religiosas estão em especial risco de serem alvo de ações judiciais. Muitos (processos) deram origem a multas, detenções de curta duração, serviço comunitário e termos de prisão de mais longa duração. Relativamente, poucos réus foram absolvidos”.
A reportagem procurou a embaixada da Rússia no Brasil, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.

