Apostar em um nome para o título de Roland Garros, que começa no domingo, não é tarefa tão simples neste ano. O sempre favorito Rafael Nadal, que cunhou no Grand Slam francês a fama de "rei do saibro", luta contra o natural declínio físico e sequer chegou à final nas últimas duas edições. O veterano e talentoso Roger Federer desistiu do torneio. Novak Djokovic, atual campeão, está em sua pior temporada desde que liderou o ranking pela primeira vez. O vácuo deixado pelas estrelas dá margem para que novos rostos sonhem em quebrar a banca -- a exemplo do que ocorreu há exatos 20 anos, com um catarinense jovem e franzino que ganharia status de lenda no tênis.
Em 1997, Gustavo Kuerten protagonizou uma das maiores surpresas da história dos Grand Slams, como são chamados os quatro principais torneios de tênis. Então 66º do mundo, Guga despachou favoritos como o austríaco Thomas Muster, o russo Yevgeny Kafelnikov e o espanhol Sergi Bruguera para conquistar, aos 21 anos, o título de Roland Garros.
Atualmente, os rostos jovens apontados por especialistas como candidatos a "zebra" da vez são bem mais conhecidos do que Guga era à época: tratam-se do austríaco Dominic Thiem e do alemão Alexander Zverev, ambos no top 10 mundial e com finais de Masters 1000 no currículo. A chave para o sucesso parece ser a mesma duas décadas depois: controlar as oscilações em quadra, normais na juventude
— Eu jogava muito bem um jogo, aí no seguinte não acertava uma bola. Perdia jogos duros, e nos momentos decisivos eu falhava. Ao longo das semanas (antes de Roland Garros), a confiança foi me corroendo. Eu não conseguia me convencer que tinha condições de enfrentar os jogadores de alto nível — declarou Kuerten nas gravações do documentário "O Guga", divulgado nesta semana para comemorar os 20 anos do primeiro de três títulos do brasileiro no saibro francês.
Para o ex-tenista Fernando Meligeni, hoje comentarista da "ESPN", a temporada pré-Roland Garros esfriou as expectativas sobre os tenistas top 5 - o britânico Andy Murray, o suíço Stan Wawrinka, Nadal, Djokovic e Federer, todos com 30 anos ou mais.
— É o ano mais aberto que eu já vi em Roland Garros. Este é um ano que dá para pensar em surpresas. Aqueles nomes que você pensaria como favoritos não estão bem — avalia Meligeni.
O ex-tenista evita, no entanto, tirar o favoritismo do heptacampeão Nadal, maior vencedor da história de Roland Garros:
— Nadal é o único cara que depende muito mais de si que dos outros para ser campeão. É favorito, porém menos do que nos últimos anos. Djokovic, Murray e Wawrinka estão muito abaixo do que podem render. E ainda por cima não tem o Federer.
Meligeni pontua que só o desempenho ao longo do torneio pode indicar as reais possibilidades da nova geração. O austríaco Dominic Thiem, de 23 anos, desponta como o mais preparado para derrubar favoritos. Thiem, nº 7 do mundo e campeão do Rio Open em 2017, acabou sucumbindo para Nadal em duas finais da temporada do saibro que antecede Roland Garros: foi vice para o espanhol no ATP 500 de Barcelona e no Masters 1000 de Madrid.
O único a quebrar a dinastia de veteranos em torneios de grande porte foi o alemão Alexander Zverev, de 20 anos, que surpreendeu com uma vitória sobre Djokovic na decisão do Masters 1000 de Roma, na última semana. O comentarista do Sportv Narck Rodrigues elogia os feitos, mas vê uma realidade distinta quando se fala de Grand Slam.
— Acho que eles ainda não têm musculatura para ganhar um torneio desses. São dois tenistas com oscilações que não aparecem nos grandes nomes. Te dou dois exemplos claros: em Indian Wells, no ano passado, o Zverev teve match point contra o Nadal. Errou um voleio, perdeu o game e depois o jogo. Já o Thiem, há um mês, eliminou o Nadal em Roma, no saibro, e se encheu de confiança. No jogo seguinte, tomou 6/0, 6/1 do Djokovic e foi eliminado — compara.
Rodrigues acrescenta o australiano Nick Kyrgios, de 22 anos, à lista de talentos da nova geração. No caso de Kyrgios, a estabilidade emocional é um problema ainda mais delicado: a fama de bad boy do australiano em quadra, que contrasta com a etiqueta tradicional do tênis, costuma atrair mais atenção do que seu jogo. Embora seja reconhecido como jogador habilidoso, Kyrgios não alcançou resultados expressivos e figura na 19ª posição do ranking. Além disso, como lembra Rodrigues, o saibro não é especialidade do australiano.
A pressão psicológica, como lembrou o próprio Guga no documentário homônimo, não pode ser desprezada. Revertê-la para os adversários é o pulo do gato para quem não chega como favorito.
— O que nós conseguimos fazer de mais triufal em 1997 foi reduzir Roland Garros a um campeonato. Se eu soubesse o que eu sei hoje, do que representa Roland Garros, ia cair na quadra e falar: "tá louco, me tira daqui" (risos) — disse Guga.

