Documento obtido pela reportagem mostra que, pelas simulações feitas pela USP, o quadro de inclusão não teria grande alteração: só 27% das 171 carreiras analisadas teriam 35% de aprovados de escola pública e 19% registrariam mais de 12,2% de PPI.
O estudo com as simulações foi produzido pela Pró-Reitoria de Graduação para servir como base para a deliberação do Conselho Universitário sobre inclusão. O órgão decidiu aumentar a bonificação para quem é de escola pública (até 20%) e criar bônus extra para PPI. A USP jamais apresentou as simulações, que foram obtidas por meio da Lei de Acesso à Informação pela ONG Educafro.
As estimativas nas carreiras consideraram o novo bônus no resultado do vestibular para ingresso em 2012. Das 47 carreiras em que o porcentual de aprovados vindos do ensino público alcança ou supera 35% do total, 20 são de humanas, dez são licenciaturas e 5 de saúde. Dentre os 30 cursos de Engenharia analisados, só três chegam ao porcentual.
Segundo o cálculo, com dados de 2012, Medicina em São Paulo, por exemplo, alcançaria 35,4% de alunos de escola pública na primeira chamada. Já na simulação com resultados do vestibular de 2013, 26,9% dos convocados em primeira chamada teriam vindo de escola pública. O porcentual de alunos de PPI chegaria a 7,6% no curso.
Em toda a USP, os convocados de escola pública em primeira chamada subiriam de 25,3% para 28,9%. Enquanto os pretos, pardos e indígenas iriam de 6,2% para 7,8%.
Metas
A proposta do governador Geraldo Alckmin (PSDB), construída no ano passado em parceria com os reitores das três estaduais, era estipular metas fixas escalonadas de inclusão. A USP decidiu pela estratégia de aumentar a bonificação.
O estudo mantinha as metas parciais até 2018, que também estipulavam 35% de escola pública e 12,2% de PPI para 2014. A USP, entretanto, jogou para 2018 a meta de ter 50% dos alunos de escola pública entre os matriculados por curso.
O diretor da Educafro, frei David Santos, disse que o documento deixa claro que a inclusão não será efetiva com a mudança do bônus. "A USP usa dados científicos para tudo que faz, mas quando é para pensar em ações para pretos e pobres não usa dados científicos", diz.
Neste ano, 37,9% dos mais de 170 mil candidatos que devem fazer a Fuvest no próximo dia 24 são de escola pública. Morador de Brasilândia, na zona norte de São Paulo, o estudante Agnelo Santos, de 17 anos, não tem nenhum amigo ou parente na USP. Ele faz cursinho ao mesmo tempo em que termina o 3.º ano na Escola Estadual Cohab Brigadeiro Eduardo Gomes. "A gente sai da periferia, não tem nada no colégio e, ao mesmo tempo, tem um monte de playboy que está lá e não dá valor", diz ele, que tenta o curso de Geofísica.
Por meio de nota, o pró-reitor adjunto de Graduação, Paul Jean Etienne Jeszensky, informou que existe a disposição de mudar os mecanismos caso os resultados não sejam satisfatórios, mas ressaltou que "é prematuro" fazer conclusões.
Ele reafirmou que a USP nunca prometeu atingir metas imediatamente. "É um sistema complexo que deve ser cuidadosamente controlado e monitorado, tendo em vista as metas globais de longo prazo."No último vestibular, 28% dos matriculados na universidade eram de escola pública.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

