TERESÓPOLIS -Contra a Bolívia, quinta-feira, em La Paz, não será a primeira vez que Thiago Silva começará como titular uma partida das Eliminatórias sob o comando Tite. A rigor, será o segundo jogo seguido, mas, desta vez, com outro simbolismo. Afinal, não há zagueiros lesionados, será pura opção do treinador, num movimento que estabelece, de forma clara, que Miranda, Marquinhos e Thiago Silva são seus três homens de confiança no setor. Os dois primeiros ainda parecem ostentar a condição de titular. Mas a afirmação de Thiago encerra uma longa trajetória de retomada gradual de espaço na seleção.
Afastado na parte final da passagem de Dunga pelo cargo, Thiago Silva já consolidara seu lugar nas convocações de Tite. Agora, na última convocação para jogos oficiais antes da Copa do Mundo, ganha uma oportunidade que pode parecer ingrata, porque acontece num jogo da altitude, que impacta a velocidade da bola a ponto de trair os defensores nas jogadas aéreas. Mas, para Tite, usar Thiago é uma decisão estratégica.
— Marquinhos e Miranda jogaram oito jogos juntos. Thiago jogou uma partida e meia com Marquinhos, mas só tinha feito meio jogo com Miranda. É preciso prepará-los, é questão de inteligência pensar em circunstâncias como lesão, cartão. — explicou Tite. — Não é teste, é consolidação de time. Não há teste com jogadores deste nível.
Antes da Copa do Mundo de 2014, no Brasil, só havia consensos sobre Thiago Silva. O de que era o mais técnico zagueiro do país e, acima de tudo, um líder nato, conhecido pela eloquência, por abordar temas delicados. Sensação abalada nas cobranças de pênalti entre Brasil e Chile, nas oitavas de final do Mundial. O choro do defensor, que não cobrou penalidades, gerou questionamentos. Assim como o cartão considerado evitável que sofreu contra a Colômbia e que o tirou da semifinal, o fatídico 7 a 1 diante da Alemanha. Instalava-se um debate sobre sua liderança.
Tite estimula competição
Viria a nova era Dunga na seleção e uma reclamação pública do zagueiro por não ser capitão do time. Até o toque de mão contra o Paraguai, na Copa América de 2015, que resultou em pênalti no jogo da eliminação da seleção. Ao fim do jogo, disse não se lembrar de ter usado a mão. O lance lembrara outro toque de mão, este meses antes, pelo Paris Saint-Germain, em jogo com o Chelsea pela Liga dos Campeões. Nessa ocasião, Thiago terminou como herói ao fazer o gol da classificação. Mas a relação com a seleção era interrompida ali.
A capacidade técnica motivou Tite a reconduzi-lo à seleção em sua segunda convocação, em outubro de 2016. A partir de novembro, voltou a jogar: entrou no lugar de Miranda no decorrer do jogo com a Argentina e na vaga de Marquinhos na vitória sobre o Paraguai, já em março passado. Firmou-se como reserva imediato dos dois zagueiros titulares e a convivência terminou de convencer Tite a ampliar seus papéis. Nos amistoso de junho, contra Austrália e Argentina, foi capitão da seleção. Até que a lesão de Miranda o fez iniciar o jogo com a Colômbia, em Barranquilla, há um mês.
— Em algumas posições eu tenho opção A, B e C ou D. Em outras, está aberto. É o caso do Arthur — disse Tite, falando do volante do Grêmio, estreante no grupo, mas que ficará no banco em La Paz.
O técnico estimula a competição, mesmo na lateral esquerda, que terá Alex Sandro como titular diante das lesões de Marcelo e Filipe Luís, teoricamente donos indiscutíveis das posições.
— Há espaço no grupo — avisa o treinador.
Tite busca novas soluções, preencher as pequenas lacunas no grupo com jogadores que lhe convençam de que podem solucionar problemas, mudar jogos. Testar novos candidatos a vagas na Copa na altitude boliviana poderia soar cruel. Assim, é possível que haja mais mudanças em São Paulo, no dia 10, contra o Chile.
— Éderson será o goleiro — antecipou Tite.
A extensão das mudanças no jogo com o Chile impõe uma decisão. O jogo pode ter muitos terceiros interessados, como a Argentina, por ser a rodada final das Eliminatórias. Tite avisou que a gestão da seleção obedece apenas aos interesses da formação de um grupo para a Copa do Mundo.
— Nossa resposta é respeitar a camisa do Brasil, o país. Dar o melhor sempre — disse o volante Casemiro, que será, em La Paz, o 12º capitão de Tite.

