‘O que que eu fiz? Não vai brigar comigo, né?” Davi de Faria Silva, de 8 anos, foi logo se antecipando à possível bronca por alguma travessura descoberta, quando entrou no quarto para ter uma conversa séria com a mãe, Fabíola, há duas semanas. Não veio o castigo esperado, mas a notícia de que dali a pouco mais de um mês ele estaria em campo de mãos dadas com os jogadores da seleção brasileira na partida contra a Costa Rica, em São Petersburgo, no dia 22.
A ansiedade é visível no menino de Barra Mansa, um dos 10 sorteados (6 meninos e 4 meninas) numa promoção internacional de uma lanchonete. Ele respira, a pedido da mãe, para se acalmar e deixar as palavras fluírem. Ela, inclusive, manteve segredo o quanto pôde. Até 15 dias atrás, o passaporte tirado era para visitar a irmã na Inglaterra.
— Sabia que ele ia ficar muito ansioso — diz ela.
Aos poucos, o botafoguense, que contraria os pais rubro-negros, vai tomando a dimensão da sorte que o aguarda — foram mais de 100 mil crianças inscritas. Davi contraria também o senso comum. Ele já sabe a quem quer dar a mão na entrada no campo.
— Não quero conhecer o Neymar! Quero o Marcelo! É o melhor lateral do mundo — diz o menino, que joga de ponta numa escolinha da cidade, mas sonha mesmo ser goleiro, como Gatito do seu time de coração. — Cansa muito correr no campo. Dali eu posso ver o jogo também.
Ontem Davi conheceu os outros dois sortudos do Rio que vão estar com ele no voo para São Petersburgo: Raul Manhães, de nove anos, de São Fidélis, e Ramon de Paiva Pimenta, de oito, de Seropédica. Ao saberem a duração da viagem, a primeira internacional deles, todos têm apenas uma preocupação: poder jogar algum game no celular. De preferência, futebol.
A decepção veio com a desconstrução do estereótipo russo: os meninos do interior do estado não vão ver a sonhada neve. “Acho que é tipo Polo Norte”, diz o também botafoguense Ramon ao ser perguntando como imaginava o país. O verão de São Petersburgo tem médias frias, de 8 a 10 graus, mas longe do imaginário glacial.
Nada que o contato inicial num país diferente não supere. A novidade é o que encanta os meninos. Numa rápida visita ao Aterro do Flamengo, na Zona Sul do Rio, o Pão de Açúcar, ao longe, chamou a atenção dos três. “O que é aquilo? É uma tirolesa?”, pergunta Ramon, espantado com o perigo que seria se pendurar nos cabos que ligam os dois morros.
Basta verem uma bola de futebol que tudo o que os rodeia perde a graça. Davi tenta um lençol; Ramon cerca os novos amigos a fim de roubá-la. Raul mostra total domínio. Quem sabe não poderá repetir isso com a equipe de Tite?
Sem falsa modéstia, o meia-atacante canhoto da escolinha do Fluminense diz que seu estilo se assemelha ao de Phillipe Coutinho. E se tivesse um apelido seria “mini-Messi”. Mas o visual, com topete alisado e luzes, foi copiado de Cristiano Ronaldo, o craque do Real Madrid, time que encanta o vascaíno no game e na vida real.
— Não gosto de ver o Brasileiro, é fraco. Gosto de ver o Espanhol e outros lá de fora — afirma Raul, que, assim como Ramon, vai brigar para pegar a mão de Neymar.
Como o momento histórico ainda está distante, aos poucos, eles vão realizando o momento em que vão se deparar com as estrelas do Brasil. Davi só sabe de uma coisa e não tem vergonha de confessar:
— Vou chorar muito.

