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Análise: Uma jogada fracassada que dividiu o chavismo

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CARACAS — Quando a procuradora-geral da Venezuela, Luisa Ortega, mostrou a Constituição bolivariana — a mesma que Hugo Chávez, seu ídolo revolucionário, brandiu centenas de vezes — sabia que atingia diretamente a liderança de Nicolás Maduro. Que a situação não continuaria igual no interior do chavismo após denunciar “a ruptura da ordem constitucional”. Que dessa forma aprofundava as diferenças entre maduristas e chavistas puros.

Ortega jamais negou sua admiração pelo “comandante supremo”, ao qual esteve vinculada pessoalmente desde a campanha eleitoral de 1998. A mesma admiração que estimula o general Miguel Rodríguez Torres, o primeiro a sair em campo para defender a procuradora-geral. Este militar, um dos favoritos de Chávez, critica a falta de liderança de Maduro desde que teve de abandonar o governo por pressões dos coletivos revolucionários (grupos paramilitares).

“As declarações da procuradora-geral são um sinal da rejeição que o crescente autoritarismo gera em setores oficiais”, destacou o analista político John Magdaleno.

As águas se tornam revoltas na torrente bolivariana. Outro general, Clíver Alcalá, foi o primeiro a rejeitar o golpe judicial e a disparar contra o presidente: “Maduro fez o que a oposição não conseguia: destruir o chavismo”, disse. Um terceiro militar se uniu ao coro. Trata-se do major-general Hebert García Plaza, que fugiu para os EUA por divergências com o governo (segundo ele) e por corrupção (de acordo com o Executivo). “Eles estão preparados para decretar estado de exceção e planejam usar a ofensiva internacional como justificativa”, disse o militar ao jornal “El Nuevo Herald”.

O cenário que García Plaza desenha é desolador para a Venezuela democrática: o setor liderado por Maduro evita as eleições para não perder o poder.

O analista político Carlos Raúl Hernández afirma que a manobra entre Maduro e o Tribunal Supremo de Justiça buscava a expulsão da Organização dos Estados Americanos (OEA) para imitar Fidel Castro. “Mas essa decisão radical se partiu dentro do chavismo: não era só Ortega que ia reagir.”

E como fica o governo agora? “É uma situação complicada, porque eles não perdoam a dissidência”, acredita Hernández. O mandato da procuradora vai até 2021, e só a Assembleia Nacional poderia pedir a sua substituição — algo impensável agora.

Ortega também tem apoios dentro do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV): seu marido é o deputado Germán Ferrer, que pertenceu à Juventude do Partido Comunista e participou da guerrilha contra Rómulo Betancourt, primeiro presidente da etapa democrática. Formam todo um histórico da esquerda venezuelana.

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