O problema quase sempre não está no crime, mas sim nas tentativas de encobri-lo. Já era assim bem antes da renúncia de Richard Nixon após o escândalo Watergate. E é assim hoje. O conselheiro de Segurança Nacional do presidente Trump, Mike Flynn, durou apenas 24 dias no cargo, antes de se demitir por uma conversa que ele diz nunca ter acontecido. Agora, seu procurador-geral, Jeff Sessions, é acusado de ter mentido a senadores a respeito de contatos que teria mantido durante a campanha eleitoral.
Algum deles teria sido cobrado se seus contatos não tivessem sido com os russos? Uma ligação para um diplomata britânico teria sido vista com tanta suspeita? Ou considerada tão problemática, a ponto de ser escondida por membros do governo americano? É improvável. A razão pela qual Flynn e agora Sessions caíram na mira de todos é porque suas supostas transgressões alimentam um tema que une uma ampla coalizão em Washington. Democratas, republicanos anti-Trump, membros da equipe do governo Obama, e setores da diplomacia, segurança e Inteligência: todos concordam que Trump é vulnerável, e até mesmo culpado, em relação à Rússia.
Indivíduos próximos a Trump tiveram ou ainda têm ligações com a Rússia? Alguns deles, como Sessions, ex-membro da Comissão das Forças Armadas do Senado, e o secretário de Estado, Rex Tillerson, ex-executivo-chefe da Exxon-Mobil, tinham razões profissionais para manter contatos na Rússia, que antecedem qualquer associação com Trump. No entanto, uma vez que a mudança na política em relação a Moscou era um dos carros-chefe da campanha do republicano, faz sentido que nomes de sua equipe contactassem o Kremlin. Por que não falar com o embaixador russo? Ele fez seu trabalho, e eles, os seus.
Não, dizem os acusadores. Esses contatos violam a Lei Logan, de 1799, que proíbe negociações entre cidadãos e potências estrangeiras. Desnecessário dizer que as circunstâncias em 1799 eram diferentes.
Em retrospecto, Trump talvez não desejasse ter sacrificado Flynn tão cedo. Seus inimigos sentiram cheiro de sangue e intensificaram a perseguição, tentando mapear todo e qualquer contato com os russos, na tentativa de expor o presidente como alguém em dívida — financeira ou moral — com o Kremlin.
O que isso diz? Os hostis a Trump querem provar que ele é um presidente descontrolado que precisa ser incapacitado se não puder ser deposto. Mas talvez isso também mostre algo mais: estariam aqueles tão ameaçados por um presidente tão pouco ortodoxo preparados para usar todos os recursos possíveis contra ele? Pode ser cedo para dizer. Mas temos que nos lembrar do início da Guerra Fria, quando americanos poderiam ser tachados de traidores por meras associações. Porque no momento, aquela infeliz pergunta — você é ou já foi...? — soa cada vez mais perto de retornar.

