O fato de os EUA terem realizado a primeira ação militar direta contra Bashar al-Assad é significativo, não apenas porque causou muitos danos às Forças Armadas sírias, mas porque pode se repetir. O lançamento de 59 mísseis Tomahawk na província central de Homs é simbólico. Mas é um aviso suscetível de ser levado a sério tanto por Moscou quanto por Damasco, porque em grande escala uma intervenção americana contra Assad é a única coisa que poderia impedir sua vitória na guerra.
Os que argumentaram que as Forças Armadas da Síria não teriam feito nada tão tolo como iniciar os ataques subestimam a extensão da estupidez presente em todos os exércitos. Há um antigo ditado militar israelense que é conveniente e diz que o general “foi tão estúpido que até mesmo os outros generais notaram”.
Apesar do ataque aéreo da noite para o dia, os governos de Assad e da Rússia mantêm uma forte posição militar, porque controlam as maiores cidades da Síria desde a retomada do Leste de Aleppo, em dezembro. O número de sírios ainda no país é de cerca de 16 milhões, considerando que há cinco milhões ou seis milhões de refugiados, que dez milhões estão em áreas sob controle de Assad e que dois milhões estão em zonas dominadas pelo Estado Islâmico (EI), a oposição armada que não integra o EI e os curdos sírios. Os curdos sírios continuam como uma força poderosa, mas movimentos de oposição armada ao EI e à al-Qaeda estão se dilacerando.
A exilada oposição anti-Assad, que tem pouco poder no território sírio, tem saudado o ataque a míssil pelos EUA, alegando que ele terminou com a impunidade de Assad. Eles têm conclamado por mais, mas, se isso não acontecer — e é improvável que aconteça — então o equilíbrio de poder político e militar na Síria não mudará significativamente.
Não significa que a guerra acabou, mas que tem sido bem-sucedida e está caminhando para o fim. É muito improvável que Washington vá querer mudar seu atual nível de engajamento a ponto de se envolver como fez — com resultados desastrosos para todos os interessados — no Afeganistão em 2001, no Iraque em 2003 e na Líbia em 2011. A Casa Branca contrastou com sua rápida e decisiva resposta ao uso de armas químicas por Assad à suposta fragilidade do antecessor, Barack Obama, mas, na realidade, as políticas dos dois governos são muito parecidas.
Obama estava dando prioridade a eliminar movimentos do Estado Islâmico e da al-Qaeda que dominam a oposição armada, e Trump está fazendo o mesmo. Obama livrou-se de Assad colocando-o em banho-maria há muito tempo, e o mesmo fazia Trump, ou parecia fazer até o ataque químico na cidade de Khan Sheikhun.
Trump afirmou que o suposto ataque com gás químico mudou sua atitude em relação a Assad e aos acontecimentos na Síria. Mas é incerto, uma vez que as políticas americanas provavelmente continuarão as mesmas porque estão funcionando com sucesso e o EI está ficando mais fraco a cada dia. As Forças Armadas do Iraque têm sofrido consideráveis perdas na batalha por Mossul, mas eventualmente irão retomá-la. O avanço dos curdos da Síria, apoiados pelos Estados Unidos, em Raqqa (a capital do EI no país), deve mostrar-se bem-sucedido.
Os Estados Unidos provavelmente não vão querer deixar de lado agora o EI e a al-Qaeda para enfraquecer as Forças Armadas sírias, que continuam sendo a principal força militar no país. Ao mesmo tempo, os americanos não pretendem permitir que Assad exiba seu sucesso e, ainda antes do ataque químico, havia relatos de que os EUA retomaram a ajuda a alguns grupos de oposição considerados antijihadistas.
Quanto aos russos, a sua intervenção militar na Síria tem sido até agora muito bem-sucedida porque os tem restabelecido, pelo menos no Oriente Médio, como uma superpotência. Se eles concluírem que Assad estava realmente por trás do ataque químico — algo que atualmente negam — então ficarão furiosos por Assad ter arriscado tanto por tão pouco. O Kremlin terá que buscar políticas paralelas com Washington, algo que remonta a 2015, quando Obama decidiu não se opor à intervenção militar de Putin no lado de Assad. Este foi um momento crítico no resultado da guerra.
Do ponto de vista de Trump, há vantagem em ter qualquer posicionamento contrário vindo de Moscou, porque se oporia às acusações internas de que ele está muito próximo aos russos — críticas do Partido Democrata e dos meios de comunicação, que (baseados em teorias de conspiração) alegam que hackers russos influenciaram a eleição, serão esvaziadas, e Trump terá seu primeiro sucesso na política externa. O ataque de mísseis poderá fazer mais mudanças na paisagem política do que na Síria.

