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Ataque à Síria dá a Trump chance de superar início ruim de governo

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BOSTON - Ao contrário do que ocorreu nos últimos anos, a ação militar de quinta-feira uniu os americanos. Após o bombardeio à base síria, a popularidade de Donald Trump aumentou, ele foi elogiado pela oposição e o fato tende a ser o mais marcante em seus primeiros cem dias de governo — a serem completados no fim do mês. Analistas acreditam que o presidente pode querer aproveitar o bom momento e o raro consenso para relançar o governo, até então em crise após uma série de fracassos.

— Foi o ato mais elogiado de Trump e foi justamente a primeira vez em que ele deixou de lado o seu mote “America First” (Estados Unidos em primeiro lugar), quando pensou em outros países e na situação humanitária dos sírios — resumiu Erick Langer, professor de História da Georgetown University, em Washington. — É uma mudança grande de paradigma e, pela personalidade de Trump, ele pode gostar do consenso e passar a agir de forma diferente.

Trump conseguiu com o ato mostrar que pode agir como comandante em chefe (algo muito questionado em sua campanha eleitoral, por causa de seu temperamento) e, de quebra, exibe uma ruptura com o estilo que vigorava com Barack Obama na Casa Branca. Além disso, foi o primeiro grande ato de liderança de Trump no cenário global e um recado a outras nações que têm problemas com os americanos.

— O ataque parece ser proporcional ao uso de armas químicas pelo regime (sírio) — afirmou Nancy Pelosi, líder da minoria democrata na Câmara dos Representantes.

A maior parte dos democratas, contudo, lembrou que, se a ação se intensificar na Síria, Trump precisa aprovar este uso continuado da força militar no Legislativo.

— Isso mostra a (Bashar al-) Assad que quando ele comete atrocidades tão desprezíveis, pagará o preço. Foi a coisa certa a fazer — afirmou Chuck Schumer, líder democrata no Senado, referindo-se ao ditador sírio. — Mas é dever do governo Trump apresentar uma estratégia e consultar o Congresso antes de implementá-la. Saúdo o profissionalismo e a habilidade de nossas Forças Armadas.

O ataque ainda mostra uma tendência que havia ficado clara quando Trump apresentou sua proposta de Orçamento, priorizando verbas aos militares em detrimento da diplomacia. Os republicanos, mais sensíveis aos temas da caserna, devem voltar a apoiar Trump, além da redução da rejeição ao presidente por parte de moderados, pela atuação num tema considerado nobre.

— Trump mostrou que prefere agir a conversar, é uma grande diferença em relação a Obama. E mostra, ainda, que os militares estão ganhando terreno dentro do governo, em detrimento dos políticos e, sobretudo, de Steve Bannon — disse o professor, em relação ao polêmico assessor que nesta semana foi afastado do Conselho de Segurança Nacional, num claro sinal de perda de poder.

Ao agir num tema que une e mobiliza a opinião pública — as cenas de crianças mortas no ataque químico chocaram o Ocidente — Trump mostra um raro sinal de respeito aos direitos humanos, em falta desde que Obama deixou a Casa Branca. E isso ocorre num momento em que sua popularidade estava muito baixa por causa do fracasso ao tentar substituir o Obamacare (o programa de saúde pública de seu antecessor), prioridade republicana nos últimos anos, mesmo tendo maioria nas duas Casas do Congresso. Trump ainda sofria com a série de medidas que foram barradas na Justiça — como as polêmicas ordens de banimento para vistos de pessoas oriundas de seis países de maioria muçulmana — e a briga com o Congresso para aprovar seu Orçamento.

O ato ainda gerou boa vontade internacional: sírios elogiaram o presidente americano, sempre tão mal avaliado por sua postura que muitos consideram islamofóbica. O apoio de líderes europeus revigora a imagem do republicano, visto como isolacionista e pouco diplomático.

Além disso, Trump pôde comemorar outra vitória ontem: o Senado aprovou o juiz Neil Gorsuch para um assento na Suprema Corte. Assim, o principal tribunal do país volta a ter maioria conservadora. Mas o nome só passou após os republicanos alterarem a regra que exigia 60 dos cem votos para indicar um juiz — agora basta a maioria simples: 51 votos. No momento, há 52 republicanos na Casa.

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