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Ataques de Trump a procurador-geral viram tiro pela culatra

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WASHINGTON - Os ataques públicos cada vez mais frequentes do presidente Donald Trump ao procurador-geral, Jeff Sessions — membro de seu próprio Gabinete e primeiro senador a apoiar a candidatura do republicano em 2016 — surpreenderam muitos em Washington e levaram a uma onda de solidariedade ao titular do Departamento de Justiça. Na terça-feira, Trump disparou críticas tanto na imprensa quanto nas redes sociais e deixou no ar, numa entrevista, o futuro de Sessions — que se tornou alvo de sua ira ao declarar-se impedido de conduzir a investigação federal sobre a suposta interferência russa para favorecer o magnata na disputa pela Casa Branca. Aliados de Sessions reagiram e acusaram o presidente de promover uma campanha de humilhação pública deliberada para pressioná-lo a renunciar, em vez de demiti-lo.

Os ataques de Trump começaram na semana passada, quando disse que se soubesse que Sessions iria declarar-se impedido, não o teria nomeado. No início da semana, ele chamou o colaborador de “atribulado”, e na terça-feira, logo de manhã no Twitter, voltou à carga, mais uma vez utilizando letras maiúsculas para reforçar a crítica: “Jeff Sessions assumiu uma posição MUITO fraca sobre os crimes de Hillary Clinton”, escreveu.

Dando mais força à teoria dos aliados do procurador-geral, a porta-voz da Casa Branca, Sarah Sanders, e o recém-nomeado diretor de Comunicações, Anthony Scaramucci, foram à TV deixar clara a frustração do presidente com Sessions. Após a declaração, Trump voltou ao ataque numa entrevista coletiva. Questionado sobre o futuro do antigo aliado, repetiu a resposta dada antes de demitir o diretor do FBI, James Comey: “O tempo dirá”.

— Quero que o procurador-geral seja muito mais duro. Estou muito desapontado, mas vamos ver o que acontecerá.

Nas últimas semanas, Sessions tem estado na mira de Trump, que segundo a mídia local, vem conversando com conselheiros sobre a possibilidade de demitir o procurador-geral. Mas, mesmo profundamente ofendido com as críticas públicas de seu chefe, de acordo com duas pessoas próximas a Sessions, sua determinação de continuar no cargo é firme. Na semana passada, ele foi a público dizer que “amava seu trabalho”.

E conselheiros da Casa Branca estariam alertando o presidente sobre as consequências de uma demissão. Seu estrategista-chefe Steve Bannon, por exemplo, enfatizou que demiti-lo seria um movimento arriscado que potencialmente desencadearia um desastre político, de acordo com um assessor da Casa Branca.

— Em uma gestão na qual muitas coisas inesperadas aconteceram, esta pode ser a mais inesperada. Isto chegou a um nível que jamais vimos — afirmou Douglas Heye, ex-assessor do ex-líder republicano na Câmara Eric Cantor, sobre o assédio ao procurador-geral.

A nova rodada de tuítes de Trump é uma resposta à reportagem de segunda-feira do jornal “Washington Post”, que revelou que o presidente e seus assessores já discutem a substituição de Sessions. No mesmo dia, em entrevista ao “Wall Street Journal”, o presidente se recusou a dizer se estava planejando afastá-lo, mas minimizou o apoio recebido do então senador durante a campanha.

— O apoio inicial de Sessions não foi assim tão leal — disparou.

A perseguição levou a uma onda de solidariedade ao procurador-geral no Partido Republicano e até mesmo no Democrata — além de entre vozes conservadoras.

O senador Orrin Hatch, um dos principais aliados do presidente no Senado, disse que espera que o Trump trate Sessions “com respeito”. A maior defesa veio do senador Lindsey Graham, da Comissão do Judiciário, que supervisiona o Departamento de Justiça. Ele elogiou Sessions por ter-se declarado impedido. “As decisões devem se basear na aplicação da lei sem indícios de motivação política”, afirmou em comunicado, chamando os tuítes do presidente de “inapropriados”. “Fazer o contrário é fugir da longa tradição americana de separar a lei da política, independentemente do partido”.

Grupos e líderes conservadores também saíram em defesa do procurador, como o Family Research Council, o Tea Party Patriots, e Jim DeMint, do Conservative Partnership Institute.

— Há um nervosismo entre os conservadores de que essa não é a luta para se travar neste momento — disse ao site “Politico” um estrategista conservador, referindo-se à ofensiva de Trump contra Sessions.

Até Chuck Schumer, líder democrata no Senado, mostrou-se preocupado:

— Ele está assediando seu próprio secretário de Justiça para que deixe o cargo.

Para analistas, os tuítes prejudicam a confiança geral de que o Departamento de Justiça não é influenciado pela política.

— Vivemos num sistema onde ninguém deveria estar acima da lei — alertou Stephen Vladeck, professor de Direito da Universidade do Texas. — O único meio legal que temos de proteger essa ideia é a independência do Departamento de Justiça.

Na terça-feira, o presidente voltou a se defender das acusações de conluio com o governo russo e falou numa suposta “caça às bruxas”. “Jared Kushner foi muito bem provando que ele não conspirou com os russos. O próximo, Barron Trump, de 11 anos”, escreveu, referindo-se ao genro e principal assessor, que depôs no Congresso, e ao filho mais novo.

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