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Belarus oscila entre euforia e depressão em movimento para derrubar ditadura

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MINSK, BELARUS (FOLHAPRESS) - No começo foi raiva. Depois muito medo, superado por correntes de solidariedade e motivação crescente. No auge, centenas de milhares foram às ruas de várias cidades bielorrussas no domingo passado (16). Pediam novas eleições livres, na maior manifestação da história do país. Do patamar elevado da catedral ortodoxa do Espírito Santo, no centro de Minsk, via-se toda a avenida dos Vitoriosos ocupada, ao longo de mais de 1 km até o obelisco ao Herói Nacional. Dos quatro pontos do cruzamento com a avenida Ma?erava, chegaram mais de 100 mil bielorrussos de várias idades, animados, levando flores e bandeiras históricas (faixas branca, vermelha e branca, do tempo da primeira república independente), muitos de branco ou vermelho. Não houve discursos nem comícios, os cartazes de protestos eram poucos e as palavras de ordem pediam novas eleições, a renúncia do ditador Alexandr Lukachenko, o fim da violência e a libertação dos presos políticos. Nos taludes das avenidas eram estendidas enormes bandeiras, bondes passavam tão lotados quanto as calçadas e, até a madrugada, era possível ouvir gritos de "viva Belarus!" e "fora!" e buzinas de motoristas em sinal de apoio. E então amanheceu a segunda-feira e começaram a pipocar mensagens de bielorrussos sentindo-se deprimidos, apáticos, angustiados e assustados. "Estava tão feliz e animado no domingo e agora nem tenho vontade de sair da cama", dizia uma delas, dirigida à psicóloga Nelly Semenchuk. A "ressaca sentimental", que ela considera normal em indivíduos que experimentam emoções extremas, era também uma imagem do humor coletivo do país, que vive picos sucessivos de mobilização, violência, resistência e apreensão desde a eleição presidencial. Governados desde 1994 por Lukachenko, bielorrussos ouvidos pela reportagem em Minsk e Lida (a 100 km da capital) do dia 15 ao dia 20 viam na eleição deste ano uma chance inédita de tirá-lo do poder pelo voto. A mobilização durante a campanha indicava forte apoio a Svetlana Tikhanovskaia, que se lançou candidata quando seu marido foi preso e formou uma frente com outras duas candidaturas independentes golpeadas por Lukachenko. Era impossível saber se ela teria chances de vitória, já que não há pesquisas independentes no país, mas não há dúvidas de que seus eleitores passavam dos 10% contabilizados pela Comissão Eleitoral. Em seu apego ao poder, Lukachenko, 65, um ex-gerente de uma fazenda coletiva soviética que venceu a eleição presidencial livre de 1994 e controlou os quatro seguintes, acabou unindo parte do país contra ele. "Não sei no que vai dar, mas acho que o que vemos agora é o nascimento da nossa nação", diz a educadora Kate, 41, ainda no sábado (15), véspera da manifestação recorde. Segundo a educadora, as pessoas começaram a se olhar nas ruas e sorrir uma para as outras. "Antes havia um receio, você não tinha ideia do que pensavam os outros. Agora conseguimos identificar esperanças comuns", afirma, enquanto uma procissão de motos passa buzinando pela avenida da Liberdade. Apesar da animação evidente, há silêncio e tensão quando passa a fila caminhões do Exército pelas avenidas do centro. Na manhã do domingo (16), a apreensão era crescente, porque agentes da Omon, as tropas de choque da Belarus, vestidos de preto, de máscaras e sem insígnia fecharam as ruas que levavam ao primeiro ato pró-Lukachenko. Só ônibus fretados e convidados podiam passar. Nas ruas, nenhuma das pessoas abordadas se dispôs a falar sobre o ditador nem declarar apoio a ele. O medo de provocações e a presença da Omon fazia "tremer de medo" a ativista ambiental Iryna, 25, que ainda assim achou indispensável vir à praça do obelisco. Outra Irina, 58, foi para as ruas nas correntes de solidariedade dos dias 12 e 13. "Quando começaram a prender e bater, tivemos um medo como nunca senti na minha vida. Mas estamos cansados de viver sem esperanças", diz a economista, moradora de Lida. Em frente a uma igreja ortodoxa, uma senhora observa de boca aberta o fluxo em direção ao protesto e pergunta: "Aonde estão indo todos? Não entendo. Querem continuar apanhando até que a polícia mate todos? Nunca vi isso acontecer na Belarus". Tatsiana, 55, que dirige a organização de direitos humanos Zvyano.by afirma temer por uma piora mais grave. "As últimas declarações de Lukachenko mostram isso. Ele não aceita deixar o poder e fará tudo para resistir". Segundo ela, quase todos os artigos do estatuto dos direitos humanos são desrespeitados em seu país. "Não há direito à associação sindical, direito de expressão, de opinião, liberdade de imprensa, eleições livres, cortes independentes. Há abuso de poder constante por parte da polícia, tortura generalizada e impunidade". Segundo a ativista, nos processos judiciais, as únicas testemunhas aceitas são os próprios policiais, e direitos econômicos também não são respeitados. "As barreiras para que cada um construa seu próprio sucesso são enormes." Essa concentração de poder por parte de Lukachenko, que na semana que se seguiu ao protesto fez arrefecer principalmente os movimentos grevistas, aprofundou a ressaca emocional dos oposicionistas. Apesar de cautelosa, Tatsiana espera que a população siga lutando. "Esse regime tem que cair. Ele não corresponde mais à nossa sociedade." "Temos medo de retaliação, temos medo de que tudo volte ao passado, mas no momento vemos muitas mudanças", afirma o diretor financeiro Vladimir, 44. "Ironicamente, em um dia Lukachenko obteve o que não havia feito em 26 anos: uniu a nação contra ele, e sentimos um novo amor por ela."

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