MADRI - Camila Hillier-Fry vive num mar de incertezas desde o referendo que decretou a saída do Reino Unido da União Europeia (UE). Inglesa morando há anos na Espanha, ela teme perder direitos que eram garantidos: a residência, o acesso à saúde pública e o visto para trabalhar. Agora, Camila enfrenta um dilema emocional. Ela pensa em renunciar à cidadania britânica e tornar-se espanhola, o único caminho seguro para contornar o limbo legal em que a política da primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, a colocou.
Centenas de pessoas já deram esse passo angustiante. As inscrições de britânicos para passar no exame de cidadania espanhola aumentaram 431% desde janeiro, em relação à média do ano anterior, segundo dados oficiais do Ministério da Justiça.
As autoridades não dão conta das solicitações. A Espanha é o país europeu com mais expatriados britânicos: 308.821 (quase o dobro da França). Eles têm agora os mesmos direitos que os espanhóis, exceto a possibilidade de votar em eleições gerais ou autonômicas.
— Se o Reino Unido sai da União Europeia sem acordo, como ameaça May, todos os nossos direitos europeus se extinguirão — queixa-se Camila, sócia de uma consultoria de recursos humanos e fundadora da plataforma Eurocitizens, que luta para que os britânicos no exterior tenham os mesmos direitos da cidadania europeia.
Entre os direitos em risco, estão a circulação e residência nos 28 países do bloco, a possibilidade de trabalhar sem precisar de vistos e o reconhecimento automático de diplomas universitários.
A situação é ainda mais delicada para os aposentados britânicos que escolheram se mudar para as costas de Valência e de Andaluzia. As consequências do Brexit poderiam deixá-los sem cobertura médica pública num momento da vida em que nenhum seguro privado os aceitaria.
— Imagina a situação em que se encontra uma pessoa mais velha, na qual a única maneira de manter esses benefícios consiste em renunciar à sua pátria — explica Michael Harris, outro ativista forçado pelas circunstâncias.
Harris é escritor, vive desde 1982 em Madri e agora, aos 61 anos, fez os dois exames — idioma e integração — requeridos para a concessão do passaporte espanhol.
A Espanha não tem um acordo de dupla cidadania com o Reino Unido e não permite que os britânicos naturalizados mantenham sua nacionalidade original. Por sua vez, um espanhol que adquira a nacionalidade britânica tem o direito às duas cidadanias, se quiser.
George Thomas, de 76 anos, é um dos que iniciaram o amargo trâmite para abandonar seu passaporte britânico. Faz 18 anos que Thomas vive em Javea, um povoado praiano na província de Alicante, onde há cinco mil ingleses numa comunidade de 27 mil habitantes. Ele tornou-se vereador socialista e aproveita sua posição para tornar-se porta-voz de seus compatriotas.
Os ingleses que moram na Espanha mantêm a esperança de que o Brexit seja amigável e atenda aos direitos dos expatriados. Porém, desde que na semana retrasada May invocou o Artigo 50 do Tratado de Lisboa, iniciando as negociações de saída, a discussão tornou-se azeda.
Para eles, o ruído diplomático entre o Reino Unido e a Espanha complica a expectativa de um acordo bilateral que blinde os direitos dos respectivos migrantes depois do Brexit.
— A situação é parecida com aquela que sofrem os espanhóis (132 mil, segundo dados oficiais) que vivem no Reino Unido — diz Camila.
A maioria começa a mudar de cidadania. A história se repete em quase todos os países da União Europeia. Normalmente, a opção mais lógica é a Irlanda, que tem vínculos muito próximos com o Reino Unido e ainda permite a possibilidade de ter a dupla nacionalidade.
Porém, também há ingleses que rastreiam suas raízes na Itália, ou investigam leis de reparação, como na Alemanha, para descendentes de pessoas perseguidas durante o nazismo, ou em Portugal para judeus de origem sefardita.

