Será a primeira reunião de uma série de encontros mensais, em que britânicos e europeus precisam decidir os termos de todos os seus intercâmbios, sob risco de voltar à estaca zero após 47 anos de união.
A lista tem 13 áreas, cada uma delas com vários itens, cada item com várias novas regras a definir, em assuntos como produtos, serviços, pessoas, informações, segurança e mais.
Chegar a um acordo em todos esses campos até 31 de dezembro, como previsto, é tido por técnicos e diplomatas como impraticável, e os europeus balançam esse prazo como uma espada sobre a cabeça dos britânicos, para pressioná-los a aceitar suas condições ou pedir um adiamento.
Boris Johnson, porém, dobrou a aposta. O primeiro-ministro do Reino Unido já prometia não prorrogar prazos; na semana passada passou a falar numa saída em junho, se as conversas não avançarem.
Por enquanto, como ocorre em negociações --ainda mais se ela envolve 513 milhões de pessoas e PIBs somados de 15,9 trilhões (cerca de R$ 79,5 trilhões)--, os dois lados esticam a corda ao máximo e evitam até falar a mesma língua.
Os britânicos proíbem que seus negociadores usem o termo "acordo ambicioso", senha da União Europeia para rejeitar conversas aos pedaços --nas palavras de um representante europeu, "não gostamos de acordos-salame; preferimos os do tipo ravióli, refeição completa num prato só".
Mandato, jargão da burocracia da UE para o documento-base da negociação, foi substituído pelo Reino Unido por "abordagem" ("approach").
Mestre na comunicação, Boris trocou "no deal" ou "hard brexit" (separações sem acordo) por "um acordo do tipo australiano" --a Austrália não tem tratado de livre comércio com a União Europeia.
Das mais problemáticas é a expressão "level playing field", abreviada como LPF, patamar mínimo de discussão. Na prática, significa que a UE só aceita acordo amplo para bens e serviços se o Reino Unido adotar suas regras trabalhistas, ambientais, fitossanitárias e etc.
Nada mais indigesto para Boris, que fez a campanha do brexit prometendo retomar o controle de suas regulações. LPF aparece 20 vezes no mandato europeu, contra apenas uma na abordagem britânica. No vocabulário do Reino Unido, ela vira "garantias antidistorções".
As partes também trocam provocações sobre quem perde mais sem um acordo. A União Europeia é o principal parceiro comercial do Reino Unido, responsável por cerca de 45% das exportações britânicas em 2018 e 53% de tudo o que os ex-parceiros compram (os números variam com critérios e taxas de câmbio).
Num dos setores mais importantes da economia britânica, o de serviços, o Reino Unido obtém 7,2% de sua receita de exportação com vendas à UE (o fluxo inverso representa só 1,1% das vendas europeias).
A indústria britânica depende de fornecedores e clientes europeus, e um impasse pode elevar muito seus custos.
Já a UE tem o setor de segurança e defesa como prioridade, e nessa área a colaboração do Reino Unido é crucial.
O saldo é que há impacto para as duas economias, muito entrelaçadas nas cadeias de produção, fluxos financeiros e de pessoas (vivem no Reino Unido 3 milhões de cidadãos da UE; 1 milhão de britânicos tem domicílio na UE).
Mas considerações políticas também complicam a DR.
Boris vendeu a promessa de recuperar as rédeas do país, mas precisa evitar a perda de empregos e de crescimento econômico. Para isso, pode até se render às exigências europeias, mas só após embalar o resultado como prova de soberania.
A UE mantém um difícil equilíbrio entre 27 países com características e interesses díspares, quando não antagônicos. Neste ano, as divergências estão mais acirradas, com a discussão de quanto dinheiro o bloco terá nos próximos sete anos e como vai reparti-lo.
Se os governantes do bloco precisam mostrar a seus membros que o benefício da união é maior que os custos de suas regras e burocracias, aliviar a vida de quem acabou de se desligar não é uma opção.
