LONDRES - Os primeiros pedidos para que a primeira-ministra Theresa May renunciasse começaram a correr o Reino Unido antes de a apuração das urnas estar finalizada, na medida em que se confirmava que o Partido Conservador não teria maioria absoluta no novo Parlamento depois das eleições de quinta-feira. A votação antecipada convocada por ela foi considerada um dos maiores erros políticos da História britânica. Os conservadores continuam sendo a maior força da Câmara dos Comuns (318 cadeiras, oito abaixo do necessário para ter maioria e 12 a menos que no Parlamento anterior), mas agora estão nas mãos do Partido Unionista Democrático da Irlanda do Norte (DUP), único grupo disposto a fazer uma coligação com a primeira-ministra. Apesar da humilhação eleitoral, May ignorou os pedidos para que deixe o cargo e tenta formar um novo governo. Depois de uma série de equívocos cometidos durante a campanha, seu futuro é incerto, assim como os próximos passos do Brexit.
O ótimo desempenho do Partido Trabalhista, que saltou de 230 para 262 cadeiras, sacudiu os alicerces dos conservadores, que pareciam na sexta-feira em estado de choque. Um ano depois do trauma causado pelo Brexit, o país voltou a sair profundamente dividido de uma votação. A crise acontece às vésperas do início das negociações sobre a retirada da União Europeia (UE), um dos maiores desafios já enfrentados pelo Reino Unido. No dia 19, o governo britânico começaria a negociar com Bruxelas os termos do divórcio, processo previsto para durar dois anos. May, defensora de uma linha dura nos acordos, acreditava que a vitória eleitoral fortaleceria sua posição. Agora, diante de um governo cuja sobrevivência está ameaçada, as conversas poderiam ser adiadas. Mesmo que consiga uma coalizão com o DUP, que é a favor do Brexit, a premier enfrentará mais resistência dos parlamentares pró-UE e maior pressão para que garanta o acesso dos britânicos ao mercado único. Se for obrigada a renunciar, o rompimento com a UE poderia ser revisto.
— Espero sinceramente que o Reino Unido esteja pronto para negociar e que não tenhamos que enfrentar um novo atraso na conclusão das negociações. No que diz respeito a nós, podemos iniciar as conversas amanhã mesmo, às 9h30m. Estamos à espera dos visitantes de Londres — declarou, ironicamente, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, que não esconde sua impaciência com May e a maneira intransigente com a qual ela vinha conduzindo as conversas sobre o Brexit.
A primeira-ministra garantiu que o cronograma será mantido, mas havia dúvidas na sexta-feira sobre sua autoridade para liderar um processo tão complexo. A expressão “pato manco”, usada para definir mandatários que já não têm poder para governar, foi ouvida com frequência em debates sobre o impasse político.
— Ela não conseguirá evitar a crise no Partido Conservador. May é como um peixe ensanguentado num tanque de tubarões famintos — resumiu Mathew Flinders, professor da Universidade de Sheffield e presidente da Associação de Estudos Políticos do Reino Unido.
Depois de se reunir com a rainha Elizabeth no Palácio de Buckingham, como exige a tradição britânica, May afirmou ter legitimidade para comandar o governo com o apoio do DUP, partido radical de direita que elegeu dez parlamentares. Arlene Foster, líder dos unionistas irlandeses, no entanto, confirmou as negociações, mas não deu a coalizão como certa. A oposição exigiu que May renuncie para evitar a paralisação do país. O Partido Liberal Democrata disse que ela deveria “ter vergonha” de continuar no cargo, enquanto os trabalhistas afirmaram ser os verdadeiros vencedores da eleição.
— Ela perdeu parlamentares, votos, apoio e confiança. Eu diria que isso é o suficiente para ela ir embora — declarou Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista, cuja força foi subestimada por May.
Em seu primeiro discurso na sexta-feira após a confirmação de que não teria maioria absoluta no Parlamento, a premier se mostrou desafiante e não mencionou o fracasso. Defendeu uma aliança com o DUP e declarou que “mais do que nunca o país precisa de certezas”. Mais tarde, diante das evidências de que sua decisão de convocar eleições antecipadas quando já tinha maioria no Parlamento fora um grave erro, pediu desculpas ao partido.
— Eu queria ampliar a maioria, mas esse não foi o resultado que conseguimos. Peço desculpas a todos os candidatos que não foram bem-sucedidos e que trabalharam duro pelo partido e também aos colegas e ministros que perderam suas cadeiras no Parlamento e não mereciam isso — discursou.
Para evitar mais desavenças dentro da legenda, ela manteve os ministros em seus cargos. Uma aliança com o DUP pode ser um problema para os conservadores. O partido da Irlanda do Norte tem uma posição semelhante à do presidente Donald Trump em relação ao aquecimento global, ou seja, pode barrar leis de controle à emissão de gases poluentes. Além disso, não aprova o direito ao aborto e é contra o casamento gay.

