TÓQUIO — A Coreia do Norte alertou nesta quinta-feira o Japão sobre o risco de "autodestruição iminente" do país por sua aliança com os Estados Unidos, em meio à tensão por mais um tiro de míssil norte-coreano, que desta vez sobrevoou o arquipélago japonês. A agência oficial norte-coreana KCNA criticou a ex-potência colonial ao afirmar que o "Japão agora vem com as mangas arregaçadas para apoiar os movimentos bélicos de seu amo" contra a Coreia do Norte.
“O vínculo militar entre os dois aliados se tornou uma séria ameaça para a Península Coreana”, adverte a KCNA. “As medidas de resposta norte-coreanas mais duras incluem advertir o Japão a evitar perder o controle para não vislumbrar sua autodestruição iminente seguindo cegamente os Estados Unidos”.
Na terça-feira, a Coreia do Norte colocou o Japão em estado de alerta ao disparar um míssil de médio alcance que passou sobre o Leste do arquipélago antes de cair no mar, provocando a condenação internacional. O lançamentode um míssil Hwasong-12 de médio alcance representa uma nova escalada na crise, um mês após a Coreia do Norte ter disparado dois mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) que poderiam atingir parte do continente americano.
O premier japonês, Shinzo Abe, denunciou o lançamento como uma ameaça grave, séria e sem precedentes, e concordou com o presidente americano, Donald Trump, sobre a necessidade de incrementar a pressão exercida sobre a Coreia do Norte. Enquanto o Japão quer pressionar mais a Coreia do Norte, a vizinha China denunciou os pedidos para aumentar as sanções contra Pyongyang, atribuindo um "papel destrutivo" a alguns países.
— Alguns países ignoram de forma seletiva as exigências de diálogo e falam apenas de sanções contra a Coreia do Norte — afirmou Hua Chunying, porta-voz do ministério chinês das Relações Exteriores, em uma aparente referência a Estados Unidos e Japão. — Suas ações e suas palavras desempenham um papel destrutivo, ao invés de um papel construtivo para resolver o problema nuclear norte-coreano, o que prejudica os esforços para retomar as negociações com Pyongyang.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou na quarta-feira que discutir com a Coreia do Norte "não é a solução", dando a entender, em um tuíte ambíguo, que a busca de uma solução diplomática com o regime de Pyongyang está condenada ao fracasso. O líder supremo norte-coreano, Kim Jong-un, prometeu novos lançamentos de mísseis sobre o Japão e garantiu que o disparo de terça-feira, condenado pela ONU por unanimidade, é apenas um "prelúdio".
"Os Estados Unidos há 25 anos têm falado com a Coreia do Norte e lhe dando dinheiro por meio de chantagem. Conversar não é a solução!", escreveu o presidente no Twitter, um dia depois de Pyongyang ter lançado um míssil que sobrevoou o Japão.
Porém, seu secretário de Defesa, Jim Mattis, declarou que ainda há lugar para a diplomacia com a Coreia do Norte:
— Nunca descartamos as soluções diplomáticas — disse ao iniciar uma reunião com o secretário de Defesa da Coreia do Sul, Song Young-moo. — Continuamos trabalhando juntos e o ministro e eu compartilhamos a responsabilidade de garantir a proteção de nossas nações, nossos cidadãos e nossos interesses.
O Conselho de Segurança da ONU, que impôs recentemente uma sétima série de sanções a Pyongyang, condenou firmemente o lançamento do míssil norte-coreano. Pequim e Moscou, dois aliados-chave de Pyongyang, apoiaram o texto, que não preveem um reforço imediato nas sanções contra a Coreia do Norte.
O "Rodong Sinmun", jornal oficial do partido único no poder na Coreia do Norte, publicou na quarta-feira cerca de 20 fotos do disparo. Em uma delas, vê-sKim Jong-un rodeado por seus conselheiros, com um mapa do noroeste do Pacífico em seu escritório. Em outra imagem, ele aparece observando o míssil lançado de Sunan, próximo a Pyongyang. O projétil percorreu 2.700 quilômetros, a uma altitude máxima de 550 km, antes de cair no Pacífico.
Em nota publicada na quarta-feira, a agência oficial de notícias norte-coreana, a KCNA, cita Kim, anunciando "mais exercícios de disparos de mísseis balísticos no futuro, com alvo no Pacífico". O lançamento de terça foi "um prelúdio importante para conter Guam, base avançada da invasão", declarou, referindo-se a um "avanço das contra-medidas" frente às manobras militares que os Exércitos americano e sul-coreano estão realizando na Coreia do Sul. Pyongyang considera que esses exercícios militares são um ensaio geral de uma invasão a seu território.
É a primeira vez que Pyongyang declara ter enviado um míssil sobre o território japonês. Em 1998 e em 2009, a Coreia do Norte havia lançado foguetes que sobrevoaram o Japão, mas, em ambas as ocasiões, Pyongyang havia argumentado que se tratava de veículos espaciais. Neste contexto, na quarta, o exército dos Estados Unidos interceptou um míssil de médio alcance no litoral do Havaí, um teste bem sucedido-sucedido do sistema de interceptação com o qual o Japão tenta reforçar sua defesa ante a Coreia do Norte. O teste foi realizado pela Agência de Defesa de Mísseis (MDA) e a Marinha americanas a partir do navio USS John Paul Jones, um destróier lança-mísseis.

