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Crise no metrô de Nova York revela precariedade no transporte público

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NOVA YORK - O DJ brasiliense Mauro Cipriano, de 32 anos, estendeu em agosto a comemoração da conquista da dupla cidadania — brasileira e americana — ao metrô, um dos símbolos da cidade que escolheu para viver. Mas embarcou rumo ao norte de Manhattan com receios mais associados à realidade de usuários do transporte público de cidades bem menos ricas do que Nova York: não sabia se o trem iria chegar no horário, se conseguiria embarcar por conta das filas na plataforma e dos vagões entupidos de gente e se, no verão com sensação térmica de 40 graus no buraco do metrô, contaria com ar-condicionado.

Não era excesso de preocupação. A revista “New Yorker” publicou, na capa de uma de suas edições de agosto, ilustração de Bob Staake a partir de expressão cunhada pelo governador Andrew Cuomo. Ele apelidou a temporada que termina extraoficialmente no feriadão deste fim de semana nos EUA de “o verão do inferno” para os cerca de 5,7 milhões de passageiros diários. E mesmo com o fim da estação chegando, os problemas não desapareceram. Eles são tantos que o prefeito Bill de Blasio, de olho na reeleição em novembro, propôs uma taxa de manutenção do serviço a ser bancada pelos moradores mais ricos da cidade.

A proposta não tem grandes chances de ser aprovada pela assembleia legislativa, bicameral, com o Senado controlado pelos republicanos, mas chamou a atenção da mídia, pois o metrô é administrado pelo governo estadual.

— Os atrasos têm se tornado cada vez mais frequentes, com a espera nos horários de pico chegando a 40 minutos — diz Cipriano, que presenciou um acidente grave na estação da Rua 14 causado por conta das filas formadas nas plataformas. — Era tanta gente que uma mulher acabou caindo nos trilhos. Posto nas redes imagens de um dia comum aqui, pois me incomoda os amigos repetirem que “só no Brasil é assim”.

A situação se agravou com a reforma emergencial nos trilhos que levam à estação Penn, principal ponto de partida ferroviária para os subúrbios. E a concentração de investimentos previstos para a expansão do metrô na Segunda Avenida, em Manhattan, e a reforma dos túneis do East River, que ligam os distritos de Manhattan e Brooklyn, implodiram o sistema coordenado pela Metropolitan Transit Authority (M.T.A.). Os ônibus não deram vazão à demanda. Especialistas afirmam que as duas ações prioritárias, ainda que necessárias, foram feitas a toque de caixa, a fim de atender aos interesses do mercado imobiliário, destacado financiador das campanhas de políticos, nos valorizados bairros de Upper East Side e Williamsburg. Deixou-se para depois a modernização da frota, o incremento dos sistemas de aquecimento e ar condicionado e melhorias de estações depauperadas no centenário metrô nova-iorquino.

Pressionado pelo Sindicato dos Trabalhadores do Metrô, que comprou espaço na TV para pressionar o prefeito a ajudar o governo estadual, De Blasio propôs também subsídio público de 50% para os 800 mil moradores mais pobres da cidade poderem arcar com os custos do bilhete unitário, a US$ 3 por viagem. O presidente da M.T.A., que foi o principal concorrente de De Blasio nas primárias democratas para a prefeitura em 2013, reagiu, afirmando que não tem jeito: é preciso uma injeção extra de US$ 400 milhões da prefeitura no metrô para a situação melhorar a médio prazo. O estado investe anualmente o mesmo valor. De Blasio argumenta que, se os 32 mil moradores mais abastados tiverem de se submeter a seu “imposto dos ricos”, a M.T.A. terá o dobro deste valor em caixa anualmente.

No meio do debate, Jessica Ramos postou nas redes sociais sobre seu trem, da Linha 7, parado no túnel entre Queens e Manhattan. Uma hora mais tarde os passageiros foram redirecionados para o Queens, e ela relatava o desespero de trabalhadores, temendo serem demitidos. Ramos é uma das diretoras de comunicação da prefeitura. Para a opinião pública, fica a impressão de que prefeitura e estado tentam jogar no colo do outro a batata quente. Na década passada, o então prefeito Michael Bloomberg propôs uma taxa de US$ 8 por motoristas que entrassem em Nova York a fim de bancar a modernização do transporte público, mas o legislativo estadual não a aprovou. Cuomo quer ressuscitar a ideia.

O governador comanda os moderados do Partido Democrata no estado, adversária da ala mais à esquerda de De Blasio. Candidato à reeleição no ano que vem e com sonhos de disputar a Presidência, Cuomo declarou “estado de emergência” para o transporte público e iniciou estudos para a retirada de cadeiras dos vagões afim de aumentar o número de passageiros nos trens. Mas foi criticado após a revelação de que US$ 5 milhões do orçamento da M.T.A. foram parar em reformas de três estações de esqui no norte do estado.

Na mesma “New Yorker”, David Sipress publicou recentemente um cartum com os passageiros do metrô, de cabeça para baixo. Já Staake, o pai da ilustração da capa, passa os verões em Cape Cod, à beira-mar, em Massachusetts, bem longe do furdunço:

— Sim, mas meus filhos continuam pegando o metrô diariamente e me contam histórias do arco da velha.

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