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Diante de pressões, May determina investigação pública sobre incêndio

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LONDRES — A primeira-ministra britânica, Theresa May, se deparou com mais uma crise num dos momentos mais delicados de seu governo: o trágico incêndio da Grenfell Tower, prédio residencial no oeste de Londres, na última quarta-feira. Após ser derrotada nas eleições legislativas que não lhe garantiram maioria parlamentar — e em meio a negociações políticas delicadas para conquistar os assentos de que ainda precisa no Parlamento para governar com facilidade —, a premier enfrenta pressões internas por explicações para o fogo que deixou 17 mortos, segundo informações mais recentes da Polícia Metropolitana de Londres. Diante desse cenário, ela prometeu na quinta-feira uma “investigação pública completa” para constatar se houve ou não negligência por parte do poder público. As críticas recaem também sobre membros de seu Gabinete.

May fez uma breve visita na manhã de quinta-feira ao edifício completamente devastado pelas chamas e conversou com as equipes de emergência que realizam buscas. Ela anunciou o inquérito pouco depois da exigência do prefeito de Londres, Sadiq Khan, por um “relatório até o fim deste verão no máximo”. Em comunicado, ele disse que as dúvidas sobre o incidente necessitam de respostas urgentes e, por isso, exigiu “uma investigação pública, independente e integral sobre o incêndio na Grenfell Tower”.

— Eles me disseram que a maneira como o fogo se espalhou e consumiu o prédio foi rápida, feroz e inesperada — explicou a primeira-ministra. — Então é certo que, junto ao relatório de incêndio imediato que será produzido e qualquer possível inquérito policial, teremos uma investigação pública completa para chegar ao fundo disso.

May assegurou que o governo fará todos os esforços para que os afetados pelo incidente sejam abrigados em Londres, “o mais perto possível de casa”, como resposta à exigência de seu principal oponente nas eleições, o líder trabalhista Jeremy Corbyn. Usando a situação para criticar a conservadora, ele disse que a “verdade tem de aparecer” e que cortes de gastos do governo podem ter contribuído para o incêndio.

“Há milhares de torres residenciais em nosso país. Toda pessoa morando em um hoje terá medo”, disse Corbyn em comunicado após visitar moradores desabrigados da Grenfell Tower.

Críticos ao papel das autoridades a respeito da segurança residencial exigem respostas de Gavin Barwell, ministro da Habitação até semana passada e atual chefe de Gabinete de May. Muitos afirmam que uma revisão necessária sobre regulamentações de padrões de segurança em casos de fogo — iniciada após um incêndio em Camberwell, no sudeste da capital inglesa, em 2009 — perdeu força durante meses sob a gestão de Barwell.

Entre os 17 mortos agora confirmados pela polícia, seis corpos foram identificados. O primeiro e único nome divulgado foi o do refugiado sírio Mohammed Alhajali — estudante de engenharia civil que se mudou para o Reino Unido em busca por uma vida melhor. Ele morava no 14º andar e teria tentado ligar para se despedir da família quando estava preso no apartamento aguardando resgate. Com o avanço do fogo, telefonou para um amigo e pediu que enviasse uma mensagem para os pais.

Diante da difícil metodologia de reconhecimento de corpos, que usa registros genéticos e impressões digitais, o comandante da polícia, Stuart Cundy, afirmou que o processo pode levar semanas. O número de vítimas poderia chegar a cem devido às dezenas de desparecidos, segundo o jornal “Independent”. A polícia, no entanto, não confirma quantas pessoas ainda não foram localizadas.

Entre os 74 feridos, 30 ainda estão em seis hospitais, 15 deles em estado crítico. O incêndio, que autoridades imaginam ter começado no quarto andar, rapidamente se espalhou, chegando aos pisos superiores. Muitos acordaram com o cheiro de plástico e com os gritos de socorro, não por alarmes de incêndio. Segundo a mídia, a torre não estava equipada com um sistema interligado de alarmes.

No bairro mais rico da capital britânica, há Ferraris, casas dos sonhos, fachadas coloridas e, agora, um grande edifício residencial calcinado, a Grenfell Tower, antes habitada por moradores humildes. Ontem, um dia depois de sofrer um incêndio que deixou 17 mortos, o prédio de 24 andares assemelhava-se a um esqueleto alçando-se até o céu azul.

— É um bairro muito misturado, com muçulmanos e não muçulmanos, muitas famílias com crianças — contou a argelina Sonia, que consolava uma amiga em busca da família desde o incêndio.

A Grenfell Tower fica no distrito de Chelsea e Kensington, um dos bairros mais ricos do mundo, mas também desigual: o luxo desaparece em uma breve caminhada.

— Vivo há 23 anos nesta torre e nunca me senti seguro — conta Soran Karimi, 31 anos, que acredita que isso jamais aconteceria em Chelsea: — Mas aqui vive a classe operária, pessoas de diferentes origens, às quais não se dá atenção.

Saber que a premier Theresa May visitou o local o deixou indiferente:

— Veio apenas por sua imagem.

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