BERLIM - Enquanto a disputa entre Angela Merkel, da coligação conservadora CDU/CSU, e Martin Schulz, do social-democrata SPD, parecia definida três dias antes da votação de hoje — as pesquisas indicam que a chanceler deve ter de 13 a 15 pontos a mais que o concorrente — quatro partidos competiam palmo a palmo pelo terceiro lugar. Para Gero Neugebauer, cientista político da Universidade Livre de Berlim, a disputa oferece a maior chance de suspense: a legenda que levar a terceira posição terá um papel privilegiado no Parlamento, com o possível direito de comandar o banco da oposição ou até se sentar ao lado da chefe do governo numa eventual coalizão.
Mas uma previsão sobre os possíveis resultados dos “nanicos” é difícil: primeiro porque os eleitores que planejam votar na extrema-direita do Alternativa para a Alemanha (AfD) receiam críticas e, por isso, não revelam sua opção; e, segundo, o resultado dos outros pequenos — FDP, Verdes e A Esquerda — sofre vários fatores.
— Os resultados do FDP e dos Verdes podem ser determinados pelos “votos estratégicos”, de pessoas que dão seus dois votos com o objetivo de influenciar uma possível coalizão, enquanto os da Esquerda e do AfD podem ser de protesto, como acontece com frequência no Leste — diz o analista.
Pelo sistema eleitoral alemão, no primeiro voto o eleitor opta por seu candidato preferido a deputado federal. No segundo, escolhe o partido, que por sua vez pode eleger o chanceler se obtiver maioria, própria ou com um parceiro de coalizão.
Para Mathias Jung, do Instituto Wahlen, o maior desafio da pesquisa eleitoral é fazer uma previsão sobre o AfD, que tem intenção de voto em torno de 10%, mas pode obter mais, como aconteceu no ano passado na eleição estadual da Saxônia Anhalt, onde a extrema-direita foi o segundo partido mais votado, com 23%, ficando acima da CDU. Além disso, quase 40% dos eleitores ainda estavam indecisos às vésperas do pleito.
Fundado em 2013 em protesto contra a política para a crise do euro de Merkel, o AfD cresceu rapidamente. Nas eleições federais daquele ano, ficou com 4,8%, perdendo por dois pontos percentuais a chance de entrar no Parlamento.
Com o enfraquecimento da crise, a legenda tendia a cair no esquecimento, mas em 2015 teve uma recuperação fulminante com a crise dos refugiados. Ainda hoje, “os alternativos” fazem mais sucesso no Leste, onde as feridas da época da reunificação alemã voltaram a abrir com a chegada dos imigrantes.
Com Alexander Gauland, 76 anos, um jornalista que deixou a CDU, e a economista Alice Weidel, 38, o AfD prepara-se para o Parlamento em duas frentes. Com declarações polêmicas de Gauland, como quando reclamou para os alemães o direito de ter orgulho de suas tropas nas duas grandes guerras, a legenda atrai a extrema-direita. Já Alice, que é casada com uma suíça, foi escolhida por sua competência econômica e experiência internacional. Ela fala inglês e mandarim, trabalhou no Goldman Sachs na China e tem uma biografia que contrasta com a política do partido, que condena o casamento gay.
O ingresso do AfD no Parlamento é visto por políticos e jornalistas como uma ameaça. Recentemente, o ministro do Exterior, Sigmar Gabriel, do SPD, advertiu contra o voto na legenda.
— Pela primeira vez desde 1945, os nazistas vão entrar no Parlamento — alertou.
Mehmet Daimagüler, advogado de origem turca, reagiu preocupado: “Também em 1933, Adolf Hitler foi eleito democraticamente”. A estratégia do AfD é conquistar eleitores do centro, usando a imagem de competência econômica de Alice.
O economista Max Otte, o primeiro a prever a crise financeira e econômica mundial de 2008 em seu livro “Der Crash kommt”, surpreendeu há poucos dias ao afirmar que continuava membro da CDU, mas seu voto iria para o AfD.
— O programa do AfD corresponde ao que tinha a CDU/CSU há 30 anos, com uma política econômica que favorece a classe média — disse.
Para Gisela Hielscher, uma ex-operária aposentada do Leste, a receita do sucesso da legenda na antiga região comunista é simples.
— O orgulho dos cidadãos do Leste ainda está ferido pela época da reunificação, quando a elite foi trocada pelos ocidentais. Agora, as pessoas sofrem ainda mais com a ameaça dos refugiados — diz Hielscher, que planeja votar no AfD.
Esses alemães receiam a concorrência dos imigrantes pelos empregos e apartamentos de aluguel de baixo. De acordo com o cientista político Frank Richter, de Dresden, que acaba de deixar a CDU, ainda hoje a população do Leste se vê como “os perdedores da reunificação”.
— Noventa por cento dos postos de chefia em Dresden e cidades do Leste são ocupados por pessoas da parte ocidental da Alemanha. Isso explica a origem do Pegida (Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente) e o sucesso do AfD — disse.
O AfD absorve também antigos eleitores do A Esquerda, os ex-comunistas que eram vistos como defensores dos interesses da região que corresponde à antiga Alemanha Oriental. Embora Sahra Wagenknecht — que é, junto com Dietmar Bartsch, candidata oficial do A Esquerda — veja seu partido em terceiro lugar, a legenda dividirá provavelmente com os liberais de Christian Lindner o quarto. Já o outro “nanico”, o Partido Verde, estagnou entre 7% e 8%. Depois que Merkel adotou posições antes mais relacionadas à legenda, os verdes foram perdendo eleitores.

