WASHINGTON — Quanto mais passa o tempo, pior parece ficar para o presidente Donald Trump a investigação da chamada "trama russa", que apura a interferência de Moscou nas eleições presidenciais do ano passado, em conluio com a campanha do republicano. De acordo com o "Wall Street Journal", Robert Mueller, o procurador especial para o caso, convocou um chamado "grande júri", ou seja, um grupo de auxiliares para intensificar as investigações.
Esse seria um forte indicativo de que o procurador está encontrando indícios de irregularidades e que pode vir a pedir a abertura de processos sobre o caso, principal fonte de instabilidade para o governo.
Segundo o jornal, este júri especial está trabalhando há algumas semanas de maneira sigilosa, ajudando Mueller a obter mais documentos e pedir testemunhos sob juramento - e pode vir a auxiliar na formulação de denúncias ao Judiciário.
A convocação coincide com as revelações, cada vez mais claras, de que pessoas muito próximas a Trump, incluindo seu filho e genro, tiveram contatos com pessoas próximas ao Kremlin.
O setor de Inteligência do governo afirma não ter dúvidas de que Moscou influenciou as eleições, algo negado veementemente por Trump. Mas se confirmado, pode embasar um pedido de impeachment.
O "Wall Street Journal" revelou que o trabalho do grande júri é secreto e que o porta-voz de Mueller se recusou a comentar o tema. Mueller assim, estaria aprofundando as investigações e confirmando a fama de independente que cercou sua nomeação - reação da Casa Branca à trapalhada demissão de James Comey da direção do FBI, que gerou suspeitas de que Trump e sua equipe estavam tentando colocar panos quentes na investigação.
A troca do comando do FBI teria ocorrido após Comey pedir mais verbas para suas apurações do caso e por ter revelado que Trump teria pressionado-o a atenuar as investigações.
A Casa Branca não confirmou a existência deste grande júri: "Os principais assuntos de um grande júri são tipicamente secretos", disse Ty Cobb, assessor especial de Trump, em um comunicado. "A Casa Branca apoia qualquer ação que acelere a conclusão do trabalho (de investigação) de forma justa e está empenhada em cooperar plenamente com Mueller".
Desde o vazamento de e-mails do Partido Democrata durante a campanha, que mostrou a cúpula da legenda favorecendo Hillary Clinton em detrimento do progressista Bernie Sanders nas primárias, havia suspeitas da participação russa. E ao mesmo tempo em que o setor de Inteligência americano ia confirmando a interferência - a ponto do governo de Barack Obama aprovar sanções contra Moscou - foram surgindo indicações de que diversas pessoas do círculo de Trump tinham contato com emissários de Moscou.
A trama russa já levou a demissão do conselheiro de Segurança Nacional, Michael Flynn, e fez com que o procurador-geral de Trump - que omitiu reuniões com o embaixador russo em sabatina no Senado - se declarasse impedido de atuar no caso.
Mas os piores envolvimentos estão na família presidencial, depois que surgiram as informações de que Jared Kushner, genro de Trump, e o primogênito do presidente, Donald Trump Jr, teriam se reunidos com russos para obter dados que poderiam prejudicar Hillary na disputa. Esta seria a principal motivação para que Mueller chamara o grande júri.
O aumento da tensão levou os senadores que realizam uma investigação paralela a tentar proteger Mueller de uma eventual demissão por parte de Trump, que no mês passado chegou a criticar o procurador, dizendo que ele "só contratava amigos de Hillary". Congressistas das duas legendas apresentaram ontem dois projetos de lei para blindá-lo.
- Nosso projeto permite a revisão judicial de qualquer decisão de demitir um procurador, para garantir que isso só ocorra pelos motivos citados nos regulamentos e não na motivação política - disse o senador republicano Lindsey Graham, que copatrocinou um dos projetos com o senador democrata Cory Booker.
Um outro projeto muito similar, que visa a evitar a demissão política de investigadores, foi assinada pelos senadores Thom Tillis (republicano) e Chris Coons (democrata).
Em outro sinal de enfrentamento ao posicionamento de Trump - que sempre demonstrou simpatia e deferência ao presidente russo, Vladimir Putin - deputados e senadores aprovaram de forma quase unânime, na semana passada, a ampliação das sanções contra Moscou. Trump, contrariado, afirmou as sanções eram "seriamente falhas" e impediriam uma negociação, mas assinou a lei.
O Kremlin - que sempre negou qualquer interferência na eleição - afirmou que há uma "russofobia" nos EUA, além de ter retirado diplomatas do país e confiscado prédios americanos em Moscou.
Nesta quinta-feira Trump advertiu que as relações entre Washington e Moscou estão "perigosas": "Nossa relação com a Rússia está em um momento historicamente de baixa e muito perigosa", escreveu ele no Twitter.

