RIO — O início da histórica ruptura com a União Europeia conduz o Reino Unido a um caminho de incertezas e a um longo processo de negociações. Para Jonathan Portes, professor de Economia e Política Pública da King's College e membro do programa “Reino Unido em uma Europa em Transformação”, o rompimento, em vez de ser uma ameaça para a integridade o bloco, pode fortalecer a unidade dos Estados-membros. Ele acredita que uma eventual vitória da líder de extrema-direita Marine Le Pen nas eleições francesas seria uma ameaça maior à UE do que o Brexit.
Algumas pessoas estavam felizes e animadas, esperando isso por um longo tempo. Outras estavam muito descontentes. Mas não foi de fato uma surpresa. Não aprendemos nada muito novo hoje. Para a maioria da população, nada mudou ainda.
Há muito preocupação em torno dos eventuais impactos econômicos. Mais especificamente, se o comércio e a livre circulação pelos membros do bloco se tornarão mais difíceis. Já vimos, por exemplo, um aumento da inflação.
No curto prazo, há um aumento de incertezas, e a economia pode começar a desacelerar. Mas não seria um desastre ou representaria um grande impacto. No médio prazo, há uma preocupação de que as negociações não tenham êxito e de que o país saia da UE sem nenhum tipo de acordo. Isso poderia ser muito problemático economicamente: veríamos novos controles de fronteira, novas taxas alfandegárias. E no longo prazo, o lado negativo seria perder o comércio com a UE. E o lado positivo seria estabelecer mais relações comerciais com o resto do mundo. A maioria dos economistas acredita que o balanço no longo prazo será de alguma forma negativo, que as perdas provavelmente serão maiores que os ganhos, mas isso levará um longo tempo para se mostrar.
Ainda não há evidências disso. Até o momento, a reação ao Brexit na maioria dos países é que as pessoas têm ficado mais relutantes em considerar uma saída do bloco e se posicionado mais pró-UE. Talvez, o Brexit tenha ajudado a fortalecer a unidade do resto da UE. Os outros países estão coordenando a sua posição em relação ao Reino Unido para manter uma frente unida nas negociações.
O Reino Unido sempre teve uma relação um pouco difícil com a UE, com menos apego ao conceito de integração política. O Brexit pode, de certa forma, tornar mais fácil para a UE avançar para uma maior integração e não há sinal de que outros países queiram seguir o caminho do Reino Unido. Assim, o Brexit não constitui uma ameaça direta para a integridade da UE no momento. Ao contrário, se Marine Le Pen — líder de um partido abertamente racista, cujos princípios são diretamente opostos a muitos valores e políticas da UE — for eleita na França, que é um dos primeiros Estados-membros fundadores da UE, seria muito mais ameaçador para a integridade e a coesão da UE do que o Brexit, tanto econômica como politicamente.
Do ponto de vista político, ela tem sido bem-sucedida. Ela é muito popular e seu partido se uniu. Mas para fazer isso, ela teve que adotar uma linha dura para encarar essa dura ruptura.
Essa é a posição já adotada pela Comissão Europeia. Não é nova, mas talvez ela (Merkel) tenha surpreendido. Acho que ela está mandando uma mensagem muito clara para o Reino Unido que resto da UE vai negociar junto. Se os países mantiverem uma posição unida, o Reino Unido terá que aceitar.
Para as pessoas que já estão morando no Reino Unido, provavelmente serão permitidas a ficar, como parte das negociações mais urgentes. Mas no longo prazo será mais difícil para europeus viverem no Reino Unido. Profissionais europeus não vão querer morar no Reino Unido, o que também pode afetar a economia.

