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Na França, principais legendas podem sair enfraquecidas

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PARIS — Antes mesmo da abertura das urnas do primeiro turno das eleições presidenciais francesas, as duas tradicionais forças políticas de esquerda e de direita do país, o Partido Socialista (PS) e Os Republicanos (LR, na sigla em francês), já começaram a refletir sobre seu futuro. O PS se prepara para uma amarga derrota de seu candidato no pleito, Benoît Hamon, e para um longo e difícil período de reconstrução do partido. Já a direita do LR esboça um plano no caso de seu candidato, François Fillon, acabar excluído da disputa do segundo turno. As últimas pesquisas de opinião colocam quatro candidatos em condições de continuar na disputa, em um empate técnico: o centrista Emmanuel Macron, do movimento Em Marcha!; Fillon e Jean-Luc Mélenchon, da frente de esquerda radical França Insubmissa. O socialista Benoît Hamon aparece em quinto lugar, distante dos líderes, com menos de 10% das intenções de voto.

Pascal Boniface, analista do Instituto de Estudos Europeus e do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris), prevê uma menor intensidade nos debates na direita se Fillon passar para o segundo turno. Para a esquerda, no entanto, seu diagnóstico é mais grave:

— Haverá, obrigatoriamente, uma recomposição espetacular da paisagem política à esquerda. O PS está encurralado entre o centro de Macron e a esquerda de Jean-Luc Mélenchon. Até aqui, o PS era dominante em relação aos partidos mais a sua esquerda, sejam os ecologistas ou os comunistas. Agora, vemos uma nova estrutura, em torno de Mélenchon.

Na sua opinião, o partido deverá enfrentar sérias dificuldades em sua tentativa de reerguimento:

— As coisas não jamais definitivas, mas a curto prazo o futuro do PS está bastante comprometido. Tudo vai depender da capacidade de Mélenchon de ocupar de forma durável o espaço que conquistou hoje. Se conseguir, o PS estará condenado a se tornar apenas uma força de apoio em torno dele.

Para Michel Wieviorka, diretor na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS), lembra que em 1996 o PS estava “moribundo”, mas bastou que o então presidente Jacques Chirac dissolvesse a Assembleia Nacional e convocasse novas eleições legislativas para que os socialistas renascessem das cinzas, em um novo governo liderado pelo premier Lionel Jospin, sustentado por ministros como Dominique Strauss-Kahn e Martine Aubry. Uma tal reviravolta hoje, no entanto, seria menos provável:

— Será realmente muito complicada a reconstrução do PS. É um partido que vai muito mal, não tem programa, nem líder, nem meios ou recursos. Não tem mais nada. E François Hollande tem uma enorme responsabilidade nisso, pois nada fez para salvar o PS e deixou que naufragasse.

Ele lembra que a crise do socialismo francês não está solitária no mundo:

— Há uma dimensão planetária do desmoronamento da esquerda clássica, com dissoluções na direção do centro, como Macron. E no que resta, há uma tendência para a radicalização, como Jeremy Corbin na Grã-Bretanha, Hamon aqui na França, e líderes em outros países que encarnam uma esquerda mais radical.

Na sua opinião, com ou sem um sucesso eleitoral de François Fillon, a direita do LR não será preservada de um debate interno, após uma campanha atribulada por denúncias de casos de corrupção.

— A situação da direita não é menos catastrófica. É um partido dividido, com oposições muito fortes, líderes que se detestam. A paisagem política francesa é desastre. Hoje, muitos pensam que uma vitória de Macron abrirá um período de recomposição para todos os lados.

Para Henri Rey, do Centro de Pesquisas Políticas (Cevipof), o PS se encontra, hoje, em “fase de decomposição”. Segundo ele, a possibilidade de que as correntes de Macron, de Hamon e do ex-premier Manuel Valls se agrupem sob a mesa sigla é bastante improvável.

— Está muito claro que a facção mais liberal do partido, de Macron, fez uma cruz sobre o PS. Ela preferiu se distanciar e ganhar autonomia.

Segundo ele, apesar de ter feito uma campanha “honorável”, Hamon não recebeu apoio de seu próprio partido, o que prejudicou suas chances. Dois importantes nomes que se engajaram abertamente e em conjunto pela realização de eleições primárias na esquerda, o economista Thomas Piketty e o ex-deputado europeu Daniel Cohn-Bendit, tomaram rumos diferentes na campanha do primeiro turno: o primeiro permanece fiel ao candidato nomeado, Benoît Hamon, e o segundo apoia Emmanuel Macron.

— Ele foi renegado por todo mundo, mesmo tendo a legitimidade das primárias. Foi abandonado por Manuel Valls (ex-premier do governo Hollande) em condições violentas, por Hollande e por ministros de peso. Se apoiou em uma minoria do PS, que talvez seja, hoje, o coração do partido após a partida dos liberais de Macron. Mesmo que alcance 10% dos votos, será um desempenho decepcionante e negativo para o partido. Mas o PS já está tão dividido que é difícil considerá-lo, hoje, como um partido.

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