Por Joshua McElwee
YAOUNDE, 17 Abr (Reuters) - O papa Leão estreou um novo e vigoroso estilo de discurso em sua turnê por quatro nações africanas nesta semana, fazendo denúncias contundentes sobre guerra e desigualdade que provocaram repetidos ataques ao pontífice por parte do presidente dos EUA, Donald Trump.
A mudança na retórica reflete a preocupação crescente de Leão com a direção da liderança global, segundo especialistas, depois que ele manteve perfil relativamente discreto para um papa durante os primeiros 10 meses de seu papado.
Trump atacou Leão pela primeira vez no domingo, chamando-o de "terrível", em uma aparente resposta às críticas do papa à guerra EUA-Israel contra o Irã. Ele voltou a fazer mais críticas na quinta-feira, sugerindo que o papa não entendia de questões de política externa.
O primeiro papa dos EUA, falando mais cedo naquele dia em Camarões, havia dito que o mundo estava "sendo devastado por um punhado de tiranos", sem citar nomes.
"Normalmente, os papas e o Vaticano são cautelosos quando se trata de política internacional, preferindo a diplomacia à censura pública", disse John Thavis, correspondente aposentado do Vaticano que cobriu três papados.
"(Leo) parece convencido de que o mundo precisa ouvir a condenação explícita da injustiça e da agressão, e ele parece ciente de que é uma das poucas pessoas que têm um púlpito global."
PAPA COMO LÍDER MORAL
O papa, conhecido por escolher suas palavras com cuidado, evitou comentários sobre os EUA até março, quando surgiu como um crítico declarado da guerra do Irã.
Ele mencionou o nome de Trump pela primeira vez publicamente apenas no início de abril, sugerindo que o presidente encontrasse uma "saída" para acabar com a guerra.
Na África, o papa tem falado com muito mais firmeza. Em discursos nesta semana na Argélia e em Camarões, ele alertou que os caprichos dos mais ricos do mundo ameaçam a paz e denunciou violações ao direito internacional por parte das potências globais "neocoloniais".
"O papa Leão está se estabelecendo como um líder moral em escala global", disse à Reuters o bispo John Stowe, de Lexington, Kentucky.
Stowe, presidente de uma organização de paz católica dos Estados Unidos, disse que as mensagens recentes de Leão tiveram mais peso por terem sido dadas durante uma visita à África, "entregues cara a cara a pessoas que têm vivido com guerra, violência, fome e pobreza crônica".
Há tempos que os papas têm sido uma voz moral no cenário global, condenando em alto e bom som situações de injustiça. Mas, em geral, eles também se esforçam para que a Igreja permaneça neutra em conflitos mundiais, permitindo que o Vaticano atue como mediador, se solicitado.
É um equilíbrio de papéis difícil de manter.
Massimo Faggioli, especialista em papado, apontou o exemplo do papa Pio XII, que dirigiu uma rede clandestina para abrigar judeus durante o Holocausto, mas é acusado por alguns críticos modernos de não ter falado alto o suficiente sobre o genocídio em curso.
"Sempre há o fantasma de Pio XII pairando", disse Faggioli, professor do Trinity College Dublin, referindo-se ao motivo pelo qual Leão pode estar decidindo falar com mais força agora.
"Acho que ele não quer que o Vaticano seja acusado de ser brando com o trumpismo porque ele é norte-americano."
LEÃO MAIS DIRETO QUE ANTECESSOR FRANCIS
Leão, o ex-cardeal Robert Prevost, passou décadas como missionário e bispo no Peru antes de se tornar papa.
Ele viveu lá durante um período intenso de conflito interno entre o governo peruano e o grupo guerrilheiro maoista Sendero Luminoso, quando dezenas de milhares de pessoas foram mortas em uma guerra sangrenta.
"No Peru rural, Prevost... estava imerso no que a pobreza, a corrupção, a globalização da indiferença, a catástrofe climática (e) a violência governamental fazem com as pessoas", disse Natalia Imperatori-Lee, acadêmica da Universidade Fordham.
"Ele é excepcionalmente qualificado para falar sobre os perigos da... corrupção política e da violência", disse ela.
O papa Francisco, antecessor de Leo, era argentino e também conhecido por denúncias contundentes de conflitos. Ele também entrou em conflito com Trump, que certa vez chamou Francisco de "vergonhoso".
Com seus comentários desta semana, disse Thavis, Leão pode ter falado com mais firmeza do que Francisco ou qualquer outro papa anterior.
"Outros papas, incluindo João Paulo II e Francisco, falaram sobre os perigos das tiranias ideológicas e do neocolonialismo", disse Thavis.
"Mas quando Leão diz que o mundo está 'devastado por um punhado de tiranos', isso me parece um desafio muito mais direto a líderes de nações poderosas."



