Por Toby Sterling e Richard Lough
AMSTERDÃ, 6 Mai (Reuters) - Ele foi anunciado como uma odisseia no Atlântico para algumas das ilhas mais remotas do mundo. Em vez disso, o cruzeiro no MV Hondius, afetado pelo hantavírus, ficou encalhado ao largo de Cabo Verde, com os passageiros em suas cabines, médicos em trajes de proteção cuidando dos doentes e a operadora do navio procurando um porto seguro.
O surto deixou três mortos e oito casos confirmados ou suspeitos ligados ao navio de expedição de bandeira holandesa.
Os passageiros, alguns dos quais estão a bordo desde 20 de março, relataram estados de espírito que oscilam entre o medo e o tédio: salões vazios, conveses silenciosos, bebidas quentes, máscaras faciais, exames médicos e a incerteza de não saber quando e como a viagem terminará.
Nesta quarta-feira, equipes especializadas retiraram três pessoas enquanto o navio se preparava para estender sua viagem até as Ilhas Canárias, na Espanha, com o consentimento das autoridades locais.
Depois de quatro dias estacionado ao largo do arquipélago da África Ocidental, o navio zarpou no final desta quarta-feira em direção à ilha canária de Tenerife, onde cerca de 150 passageiros e tripulantes restantes poderão finalmente desembarcar sob supervisão médica. Não está claro se eles serão colocados em quarentena na chegada.
CONFINADOS ÀS CABINES
A operadora de cruzeiros Oceanwide Expeditions disse aos passageiros para seguirem "medidas de isolamento, protocolos de higiene e monitoramento médico".
Martin Kriz, um médico sueco que tem servido a bordo do Hondius, disse que isso significa fazer as refeições em cabines apertadas para quatro pessoas."É um espaço bem pequeno", disse ele à Reuters.
Mas os passageiros dizem que as condições não eram ruins. O passageiro Kasem Hato disse que o clima estava calmo.
"As pessoas estão levando a situação a sério, mas sem pânico, tentando manter o distanciamento social e usando máscaras para se proteger", disse ele à Reuters. "Nossos dias têm sido quase normais, apenas esperando que as autoridades encontrem uma solução, mas o moral no navio está alto e estamos nos mantendo ocupados lendo, assistindo a filmes, tomando bebidas quentes e esse tipo de coisa."
Um clipe mostrou o salão com painéis de madeira do Hondius parecendo limpo e vazio. Poltronas e sofás estavam agrupados em tapetes coloridos, com o mar visível através das janelas.
Imagens postadas nas mídias sociais e analisadas pela Reuters mostraram grandes sacos de suprimentos sendo entregues no convés do navio por trabalhadores usando aventais hospitalares e máscaras. A cena marcou um forte contraste com as fotos de vistas espetaculares da Antártida que os passageiros compartilharam no início da viagem. Jake Rosmarin, dos Estados Unidos, tornou-se um dos rostos mais conhecidos do navio depois de publicar um vídeo emocionado de sua cabine no Instagram, sobre a incerteza que os passageiros enfrentavam.
Mais tarde, ele se mostrou mais calmo.
"Estou me sentindo bem, tomando um pouco de ar fresco e continuando a ser bem alimentado e cuidado pela tripulação", disse ele em uma postagem posterior.O YouTuber turco Ruhi Cenet, que partiu do navio em Santa Helena em 24 de abril, foi mais crítico. Ele disse que depois que o primeiro passageiro morreu em 11 de abril, os passageiros foram informados de que ele não era contagioso, então continuaram a se socializar e a fazer refeições juntos.
Com medidas de isolamento mais rápidas, "acho que esse problema poderia ter sido reduzido antes de se espalhar demais", disse ele à Reuters de Istambul.
A Oceanwide disse em um comunicado nesta quarta-feira que as informações transmitidas pelo capitão do navio eram precisas na época e que ele havia seguido os padrões adequados de saúde e segurança após uma morte no mar.
VEGETAIS FRESCOS
A passageira belga Helene Goessaert disse à emissora belga VRT que a atmosfera estava "relativamente boa", com frutas e vegetais frescos ainda chegando a bordo. Ela elogiou a tripulação.
"Estamos todos no mesmo barco, literalmente", disse ela.
Goessaert disse que, depois de águas agitadas no início da viagem, os passageiros não se abalam facilmente.
"Acho que as pessoas a bordo aguentam alguns trancos", disse ela.



