Início Mundo Passagem do Irma castiga mais fortemente os pobres
Mundo

Passagem do Irma castiga mais fortemente os pobres

MIAMI — O furacão Irma assustou a todos, mas seu vento parece soprar mais forte para alguns. A desigualdade social do sul da Flórida faz com que os mais pobres sintam a tormenta de forma turbinada. Considerada uma das cidades com maior disparidade de rendas dos EUA, Miami tratou diferente seus moradores.

A região central da cidade, onde ocorreram as principais inundações, é o local preferido dos mendigos. E, apesar de a prefeitura ter afirmado que daria atenção especial aos sem-teto, muitos afirmaram que isso não ocorreu. Por conta própria, eles tentaram buscar formas de se proteger do mais forte furacão já visto no Atlântico, em cem anos.

— Ninguém me ofereceu abrigo, tive que caminhar horas até encontrar este estacionamento. Mas estou bem, não me falta nada — afirmou Noel, que preferiu não dar seu sobrenome, e que esperava pelo Irma com uma pequena mochila e um pedaço de papelão que servia como cama entre os lances de escada do estacionamento que se tornou um abrigo. — Tudo vai ficar bem, já vivemos muitos problemas.

Mesmo quem não tem uma situação extrema sentiu a diferença. A peruana Diosa Rodríguez, de 57 anos, mora em uma área mais pobre ao norte de Miami e buscou refúgio para evitar o pior. Mas sabe que, quando a tormenta passar, sua realidade será diferente:

— No albergue tudo estará bem, mas o problema é que, ao chegar em casa, tenho que me preparar para uns dez dias sem luz. Não tem jeito, toda vez eles ligam primeiro a energia nas áreas ricas e turísticas — contou na sexta-feira, quando chegou a seu abrigo em Pompano Beach.

Jornais americanos e estrangeiros noticiaram o fato de que muitas pessoas estão mal preparadas e com poucos recursos em locais como Liberty City, bairro negro que inspirou o filme vencedor do Oscar deste ano, “Moonlight”. Segundo a imprensa, algumas pessoas tinham mantimentos para poucos dias, em claro contraste com a realidade da maioria dos habitantes da cidade, que muitas vezes exageram nos provimentos para furacões.

Na tarde de sábado, horas antes da temível chegada dos ventos do Irma, Raúl, um filho de hondurenhos de 33 anos, colocava proteções de madeira em uma mansão em Miami Beach.

— Fui contratado por pessoas que sequer estão aqui, querem apenas proteger suas casas. Mas isso vai me dar dinheiro para comprar mais mantimentos para minha família. Só quero chegar em casa para ficar logo com meu filho — contou ele, que preferiu não dar seu sobrenome. —Vai parecer que estou reclamando de trabalhar para os ricos, não é isso, esse é meu sustento.

Outros imigrantes, contudo, não reclamaram do trabalho durante o furacão:

— Poderia ter pedido para ficar em casa, mas achei melhor estar no hotel. Além de ser mais seguro, é menos entediante — contou Ingrid Mendoza, colombiana que trabalha como recepcionista em South Miami.

De uma maneira geral, contudo, o governo local tem sido elogiado por sua eficaz estratégia para o furacão. A comunicação foi direta e simples, os abrigos foram abertos com antecedência e em número suficiente e não faltou comida ou combustível.

Os mais abastados, no entanto, sofreram menos com os problemas. Muitos saíram com antecipação de suas casas — a maior parte delas frente ao mar, um dos locais mais vulneráveis em caso de furacão — e foram para hotéis de Miami ou para fora do estado. Os que ficaram, contudo, contaram com boa infraestrutura e sofreram menos.

— O furacão foi bem pior do que eu imaginava, ainda mais pensando que não foi um categoria 5 e seu olho não passou por Miami, como eu estava esperando. Estou em uma casa em frente ao Canal de Harbor Beach (em Fort Lauderdale), e a região não tem energia. A sorte é que temos um supergerador em casa — disse a paulista Aline Raquel Gruber.

Siga-nos no

Google News
Quer receber todo final de noite um resumo das notícias do dia?