As polêmicas em série de Donald Trump fazem com que muitos especialistas vejam seu governo como o mais divisionista e radical dos Estados Unidos desde Abraham Lincoln — que administrou o país durante a Guerra Civil. E a gestão personalista do presidente, que prefere atacar adversários a dialogar, dificulta a busca por consensos, inclusive dentro do partido, e pode impactar a sociedade americana para além de seu mandato.
Somente na última semana, diversos desafios foram vividos pelos presidente, como a destruição provocada pelo furacão Maria em Porto Rico — a demora na resposta tem sido comparada aos problemas do Katrina, em 2005 —, a polêmica sobre a declaração ou não de guerra com a Coreia do Norte e o fracasso da reforma da saúde, uma das principais promessas dos republicanos e que não sai do papel, apesar da maioria do partido no Congresso. Não bastasse isso, Trump atacou esportistas que protestavam na NFL na hora do hino e viu questões éticas de secretários dominarem o noticiário (com mais uma demissão na equipe).
Muitos progressistas pensam que os problemas acabarão quando Trump sair da Casa Branca. Não é verdade. A divisão e a radicalização que está criando terão consequências graves. Ao tratar seus oponentes como inimigos, cria problemas que podem ferir o país, afirmou ao GLOBO Thomas Mann, pesquisador do Brookings Institution que lançou nesta semana o livro “Uma nação após Trump, um guia para o perplexo, os desiludidos, e os ainda não deportados”, escrito em parceria com E. J. Dionne Jr. e Norman J. Ornstein.
Embora veja Trump como manifestação de um movimento de rejeição aos políticos que cresce há anos, e apesar de indicar que forças progressistas têm reagido com força, ele afirma que o tom desafiante e raivoso do presidente tende a tornar as divisões da sociedade americana mais fortes.
— Não imagino que vá mudar seu comportamento. Vai continuar dividindo a sociedade, demonizando os adversários, ao mesmo tempo em que deve piorar sua situação nas investigações sobre o eventual conluio de sua campanha com a interferência russa nas eleições — afirmou. — Vemos agora que tem usado o debate sobre o protesto dos jogadores de futebol americano para dividir o país, tem substituído o patriotismo por nacionalismo, por nativismo.
Norman Ornstein, cientista político que divide a autoria do livro com Mann, lembra que Trump é um fenômeno da alta desigualdade e da falta de esperança da sociedade americana. E acredita que seu exemplo de política, onde rebate uma polêmica com outra polêmica ainda maior, pode ser repetida por todo o país. Sem pensar em unir a nação em torno dos grandes ideias, o presidente, em sua opinião, renuncia ao posto de líder moral dos EUA.
Sua gestão, além de pouco eficiente na aprovação de projetos, tem sido avaliada cada vez mais como algo como o primeiro governo independente do país. Apesar de se colocar como um contraponto a Barack Obama, Trump tem pouco em comum com os republicanos, mesmo a ala mais radical. O grande ponto em comum — a luta por reduzir impostos — foi vista nesta semana na apresentação da reforma fiscal da Casa Branca, mas os debates para sua aprovação no Congresso serão um teste para a capacidade de negociação e persuasão do presidente, que até agora tem dedicado pouco tempo a parlamentares, envia projetos que não são analisados antes por correligionários e, muitas vezes, usa a ameaça como arma para tentar impor seus planos.
Gestão contraditória
Seu governo se vê envolvido em questionamento éticos, seja sobre a equipe — Tom Price, secretário de Saúde, renunciou após a polêmica de usar jatos fretados para viagens pessoais — ou de pessoas de seu círculo, como manter os filhos à frente de suas empresas e receber chefes de Estado em seus hotéis, fazendo com que o serviço secreto pague diárias para suas empresas.
— Este presidente atua no limite do culto à personalidade — afirma Michael Traugott, professor do Centro de Estudos Políticos da Universidade de Michigan. — (“EUA em primeiro lugar”) era um slogan (de campanha). Suas políticas e seu comportamento para enriquecer suas propriedades e empresas sugerem que ele está mais interessado no (“presidente em primeiro lugar”).
Na política externa, onde criou constrangimentos diplomáticos com países como México, Reino Unido e Israel, Trump é acusado de, com sua retórica inflamada, tensionar questões, como nas crescentes ameaças à Coreia do Norte. Muitas vezes suas opiniões contrariam iniciativas do próprio governo e aliados.
— Trump sequer tem uma vaga visão internacional estratégica, ou mesmo táticas coerentes. A ambiguidade pode ser uma estratégia, Roosevelt e Eisenhower usaram isso bem. Mas para Trump é confusão, mais discordância com conselheiros que tentam acalmar a situação após suas declarações, às vezes inflamadas — afirmou Leo Ribuffo, professor especialista na história dos presidentes, da Universidade George Washington. — Este é o governo americano mais personalista de todos os tempos. Não só por seu estilo pessoal errático, mas pelo uso de parentes em posições políticas de destaque — disse, lembrando a filha e o genro com cargos na Casa Branca.

