SÃO PAULO, 8 Abr (Reuters) - A indústria brasileira de veículos produziu 264,1 mil unidades em março, salto de 27,6% ante fevereiro e de 35,6% na comparação com um ano antes, impulsionada em parte por forte crescimento nas vendas, que foram as maiores para o mês desde 2013, segundo dados divulgados nesta quarta-feira pela associação de montadoras, Anfavea.
O resultado surpreendeu a entidade. "Foi diferente do que estávamos esperando, mas não dá para dizer que é tendência para o restante do ano", disse o presidente da Anfavea, Igor Calvet, em entrevista a jornalistas.
Segundo a Anfavea, o volume produzido no mês passado foi o mais alto desde outubro de 2019.
O volume de veículos despachados a compradores no exterior cresceu 21,1% ante fevereiro, ficando praticamente estável na comparação anual, a 40,4 mil unidades, segundo os dados da entidade.
O destaque foi o crescimento de 21,5% nos embarques à Colômbia (7,5 mil veículos) no primeiro trimestre ante um ano antes, enquanto as vendas à Argentina, principal mercado do Brasil, caíram 28%, a 51,7 mil unidades. Calvet afirmou que as exportações à Colômbia, terceiro maior mercado brasileiro de veículos, subiram 50% em março e que a indústria espera uma renovação do acordo automotivo do Brasil com o país vizinho, que passará por eleições em maio.
No acumulado do trimestre, a produção brasileira cresceu 6%, para 634,7 mil veículos, já a exportação reduziu a queda acumulada para 18,5%, a 99,7 mil unidades.
Os licenciamentos de março somaram 269,5 mil carros, comerciais leves, caminhões e ônibus, salto de 45,5% na comparação mensal e crescimento de 37,8% na relação anual. No acumulado de janeiro ao final de março os emplacamentos cresceram 13,3% sobre um ano antes, para 625,2 mil unidades.
BRIGA PELO MERCADO INTERNO
Calvet afirmou que o ambiente promocional ajudou a impulsionar as vendas em meio à chegada de novas marcas ao país. Além disso, houve crescimento de oferta de veículos aptos ao programa Carro Sustentável, que incentiva a venda de modelos de emissões reduzidas de poluentes e entrou em vigor em julho do ano passado. Nas contas da Anfavea, o número de modelos habilitados ao benefício subiu para sete ao final de março e o volume de vendas desses veículos cresceu cerca de 31%.
Segundo o executivo, 11 novas marcas de veículos leves devem chegar ao Brasil apenas este ano.
O setor encerrou o mês passado com 434,2 mil veículos em estoque, aumento de 10% sobre fevereiro. Do total em estoque, segundo a Anfavea, 257,7 mil são importados, o suficiente para 169 dias de vendas.
A tendência até o final de junho é o crescimento dos estoques de importados, uma vez que o Imposto de Importação para modelos eletrificados vai subir ao pico de 35% em julho, afirmaram representantes da Anfavea.
CAMINHÕES E IMPOSTO SELETIVO
Um dos segmentos que mais têm sofrido queda de vendas nos últimos meses, caminhões, teve forte avanço em março, com produção subindo quase 43% ante fevereiro e vendas avançando cerca de 32%.
Mas os números unitários de produção, 11,1 mil, e de emplacamentos, de 8,8 mil, ainda ficaram abaixo dos vistos em março de 2025, com o segmento acumulando um primeiro trimestre de quedas de 19% no volume montado e de 21% no vendido.
"Tivemos um pequeno suspiro (em março) muito em virtude do Move Brasil", disse o presidente da Anfavea sobre o programa federal que começou em janeiro com condições facilitadas de financiamento de caminhões e que contou com recursos de R$10 bilhões.
Calvet reforçou comentário da véspera do presidente da associação de concessionários, Fenabrave, que citou que os recursos para o Move Brasil já praticamente se esgotaram e que o setor tenta uma definição do governo sobre uma eventual prorrogação do esquema.
"O mercado agora já travou de novo", disse Calvet, explicando que diante da indefinição sobre uma renovação os compradores seguram seus pedidos e que os números de emplacamento de caminhões de abril e maio devem trazer ainda efeitos do incentivo do programa.
Outra indefinição que perturba o setor é sobre a reforma tributária e quais alíquotas vão incidir sobre os veículos leves a partir de 2027. "Já estamos em abril e a reforma entra em vigor em janeiro de 2027 e não sabemos ainda qual imposto incidirá sobre nossos produtos", disse Calvet, referindo-se às alíquotas do Imposto Seletivo, que podem atingir até 18% e que devem entrar em vigor no próximo ano.
"A informação que temos é que a base do Imposto Seletivo será a base do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) Verde já vigente", disse Calvet. O IPI Verde incentiva a produção de veículos com baixa emissão de poluentes e pode até ser zero. "Se assim for, não há razão para revisão dos nossos investimentos", disse o presidente da Anfavea.
(Por Alberto Alerigi Jr.Edição de Paula Arend Laier)



