Os Estados Unidos não têm planos para mudar a política de antagonismo em relação a Cuba com a chegada de Miguel Díaz-Canel à presidência do país, e as relações entre os velhos inimigos da Guerra Fria podem, inclusive, piorar no futuro próximo, afirmaram especialistas consultados por Agência Efe.
Díaz-Canel assumiu hoje a presidência de Cuba e permanecerá no cargo até pelo menos o próximo congresso do Partido Comunista Cubano em 2021, o mesmo ano de encerramento do primeiro mandato do presidente americano, Donald Trump.
O primeiro líder cubano sem o sobrenome Castro em seis décadas deverá, portanto, conduzir uma complexa relação com Trump, que congelou o processo de reaproximação iniciado pelo ex-presidente Barack Obama e restringiu o comércio e as viagens para a ilha.
"Amamos Cuba. Estamos cuidando de Cuba", disse Trump hoje durante uma visita ao estado da Flórida.
Uma fonte da Casa Branca disse à Efe que "duvidava" que Trump fosse parabenizar Díaz-Canel por ter se tornado presidente de Cuba. Ela também afirmou que o governo americano espera poucas mudanças na ilha com a mudança no poder. Por isso, a decisão de manter a linha dura para Havana está praticamente tomada.
Quem acompanha de perto a relação bilateral acredita, inclusive, que ela pode se tornar mais tensa nos próximos meses. O motivo é a combinação dos novos conselheiros de Trump: John Bolton, assessor de segurança nacional, e Mike Pompeo, indicado para assumir o Departamento de Estado e atual diretor da CIA.
Ambos já apresentaram várias ressalvas a Cuba. Bolton, por exemplo, chegou a falsamente acusar o país de ter um programa de armas biológicas de destruição em massa em 2002. E sua chegada à Casa Branca neste mês disparou vários alarmes em Havana.
A combinação entre a nova equipe e a influência de Marco Rubio, senador republicano de origem cubana, sobre Trump pode resultar em novos gestos hostis da Casa Branca para a ilha.
"As possibilidades de uma linha mais dura para Cuba são maiores do que nunca", disse o presidente emérito do Centro de Estudos Diálogo Interamericano, Peter Hakim.
"Tanto Pompeo como Bolton foram extremamente críticos com Cuba. Portanto, poderíamos perfeitamente ver uma política americana ainda mais hostil para Cuba nos próximos meses", avaliou o especialista American University e autor de vários livros sobre a relação entre os dois países, William LeoGrande.
Já Marguerite Jiménez, diretora para Cuba no centro de estudos Escritório de Washington para a América Latina (WOLA), afirmou que Bolton pode colocar pessoas que pensam como ele no Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca. A mudança poderia abrir a possibilidade para um maior antagonismo entre os dois países.
O grau de influência das pessoas que cercam Trump será decisivo. Até então, a política adotada pelo presidente responde a uma promessa de firmeza em relação aos Castro feita na reta final da campanha em 2016 para o núcleo contrário aos ex-ditadores na Flórida, um estado-chave para vencer as eleições nos EUA.
Trump mostrou nesta semana que ainda dá grande importância à base eleitoral da Flórida ao conceder entrevistas à emissora "Univisión" e à rádio local "Mambi".
"Estamos sendo muito duros em relação a Cuba porque queremos que o povo tenha liberdade. Tenho um grande apoio do povo cubano aqui", afirmou Trump em uma dessas entrevistas.
Sem os cálculos de Trump sobre sua base eleitoral e as negociações com Rubio para obter apoio em outros temas, a importância que o governo dos EUA dá a Cuba não pode ser explicada. Hoje, o país tem pouco valor geoestratégico para os americanos.
"Neste último ano, a ilha teve um nível de atenção incongruente com os desafios que os EUA priorizaram no mundo", afirmou à Efe a especialista em Cuba do Atlantic Council, Roberta Braga.
Jiménez vê uma única razão para esperança: a insinuação de Pompeo, durante a audiência de confirmação no Senado para assumir o Departamento de Estado, de que os EUA podem reforçar a equipe diplomática em Havana no futuro próximo.
Apenas dez pessoas estão trabalhando na embaixada americana em Havana, reaberta por Obama. Trump esvaziou o local no ano passado, como resposta aos supostos ataques sônicos sofridos por diplomatas do país em Cuba. Fonte: EFE.

