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Rohingya relata drama de perder família em naufrágio na costa de Bangladesh

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COX’S BAZAR, Bangladesh — Através da água agitada, Alam Jafar podia ver seu filho de sete anos respirando fundo, os braços um pouco acima da superfície do oceano. O menino estava chorando mais alto do que já tinha na vida. Ele não sabia nadar.

— Papai! Papai! Ajude-me!

Poucos momentos antes, Jafar havia se aconchegado em um pequeno barco de pesca cheio de refugiados de Mianmar rumo a Bangladesh. Eles fazem parte do maior êxodo humano na Ásia desde a Guerra do Vietnã: mais de 500 mil muçulmanos rohingya deixaram o país, após suas casas terem sido incendiadas pelo Exército birmanês. O que aconteceu a seguir, a apenas 300 metros da costa, levaria a vida de pelo menos 50 pessoas, a maioria crianças, na tragédia mais mortal desde que a crise explodiu no final de agosto. Através de entrevistas com mais de uma dúzia de sobreviventes, a Associated Press reconstruiu o drama do final do mês passado.

Apesar das situação dos rohingyas — a ONU os chamou da minoria mais perseguida no mundo — Jafar, um fazendeiro de 25 anos, conseguia viver bem. Em 2009, ele casou com Tayiba Khatun após juntar o suficiente para pagar seu dote em ouro: um colar, brincos e anéis de nariz. Eles tiveram três filhos.

No dia 25 de agosto, insurgentes rohingyas armados com rifles e machados atacaram dezenas de postos policiais e uma base militar em Mianmar. Em resposta, multidões apoiadas pelas forças de segurança começaram a incendiar vilas inteiras onde morava a minoria. Um mês depois, Jafar acordou em meio a tiros e gritos. Do lado de fora, chamas cresciam, e famílias inteiras começaram a abandonar o local.

— Como podíamos deixar tudo para trás? Nós não tínhamos opção — Jafar contou. — Nossos bens não salvariam nossas vidas.

A família de Jafar se juntou a um fluxo interminável de famílias que saíam da aldeia. Eles caminharam por dois dias, passando pela água fria de córregos e dormindo no chão. Na manhã do dia 27 de setembro, eles finalmente alcançaram a costa. Jafar nunca tinha visto o oceano antes e, para ele, parecia infinito e irreal. A imensidão deu a ele esperança que a pior parte da jornada já tinha passado.

Milhares de refugiados já estavam acampados na praia, exaustos. Cada família tinha uma história para contar, de uma aldeia queimada, um marido morto, uma mulher estuprada. Algumas horas após o anoitecer, dezenas de barcos de pesca de Bangladesh apareceram. Jafar e sua família partiram. O barqueiro contou cerca de 80 pessoas, incluindo mais de 50 crianças, e os deixou embarcar. O barco se afastou da costa.

No começo, ninguém falava. Uma hora passou, depois duas. Jafar sabia que eles deveriam cruzar o rio Naf e chegar em Bangladesh, mas quando ele levantou sua cabeça, nao havia nada para ver, somente escuridão. Nas próximas horas, o clima ficou pior. Os refugiados começaram a notar que a água, que não tinha aroma perceptível na foz do rio, agora cheirava diferente: era água salgada. Algo tinha dado errado. Eles se afastaram muito de onde partiram, em direção ao oceano.

— Estamos perdidos — disse o barqueiro.

Os refugiados começaram a pedir ajuda a Deus, a Alá. Jafar podia ouvir sua mulher chorando. Depois de algumas horas, alguém viu as luzes de um grande barco a distância. Eles balançaram lenços acima de suas cabeças e gritaram em meio às ondas, mas após 30 minutos as luzes se apagaram.

Ao amanhecer, um novo sentimento de medo se instalou. Tudo o que eles podiam ver era água. Logo, o barqueiro anunciou que o barco estava perigosamente sobrecarregado. As bolsas pequenas e garrafas que os refugiados carregavam foram jogados no mar. Pelo que pareceu uma eternidade, o barco navegou. O cheiro de vômito misturado com o cheiro de suor e urina. A sede fez com que a garganta de Jafar ansiasse por água.

Enquanto o barco balançava infinitamente para frente e para trás, eles dormiam e acordavam. Então, ficaram surpresos ao ouvir um das pessoas, com os olhos arregalados, gritando.

— Está lá! Está lá!.

Jafar pensou que estava sonhando, mas quando ele ergueu seu corpo, também viu: o topo de uma colina verde e nuvens brancas em uma costa. Ninguém sabia que país era, mas ninguém se importou.

Enquanto o barco motorizado se aproximava da costa, o vento começou a aumentar, o céu escureceu e chuvas torrenciais começaram a cair. Então, em algum momento próximo das 15h30, o motor parou. Os refugiados não sabiam se havia acabado o combustível ou se o motor havia queimado. As pessoas começaram a chorar e gritar, fazendo as últimas preces.

Sem motor, o barco estava à mercê das ondas, que o tratavam como um brinquedo. O litoral estava a poucas centenas de metros de distância. Quando uma onda gigante de repente atingiu o barco, virando-o de cabeça para baixo. Jafar caiu nas águas com seus os gêmeos, enrolados em seu peito. Batendo os braços, ele tentou manter a cabeça acima da água. Ele mal conseguia enxergar, mas viu sua mulher e seu outro filho. Jafar ouviu Mohamed chorar.

— Papai! Papai! Ajude-me!

Eles não estavam longe um do outro, talvez três metros, quando a segunda onda os atingiu. Então, Jafar não os viu mais. Durante meia hora, Jafar lutou para nadar com a corrente, mas as ondas e o peso dos gêmeos continuavam o empurrando para baixo. Ele não sabia se eles estavam mortos.

Jafar estava exausto. Quando ele percebeu que se afogaria, ele desamarrou o pano que o ligava os filhos e os deixou. No momento em que ele chegou na praia, no pôr do sol, ele entrou em colapso: “Onde eu estou?”

— Irmão, você está em Bangladesh — disse um homem.

Na praia, Jafar procurou desesperadamente por sua família. Quando ele encontrou seus corpos, colocados na areia por equipes de resgate, ele chorou. Dos 80 refugiados que estavam no barco em 28 de setembro, apenas 24 sobreviveram. A polícia recolheu 23 corpos na costa. O resto, principalmente crianças, ainda está desaparecido e presumivelmente se afogou. Os mortos do dia 28 de setembro estão entre os, pelo menos, 184 royingya em 28 barcos que morreram tentando fazer o cruzamento para Bangladesh desde agosto.

Jafar não deixa de pensar no que aconteceu e se sente impotente com a solidão e a culpa. Onde quer que ele olhe, ele vê seus filhos.

— Por que eu trouxe meus filhos aqui e deixá-los morrer na água? — Ele pergunta. —Não teria sido bom se eu também tivesse morrido? Não seria?

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