BUENOS AIRES — Não existem muitas certezas na Venezuela, mas a maioria dos analistas locais coincide em afirmar que nada do que aconteceu na última terça-feira foi produto da espontaneidade. Na opinião de Gabriel Reyes, professor da Universidade Católica, está claro que “setores do governo estão buscando criar um clima de caos, como estratégia para justificar a suspensão de garantias políticas e, em consequência, fortalecerem-se no poder”.
Não podemos ver apenas a árvore, é preciso ver o bosque. O que vejo é que existe o interesse por parte de setores do governo de gerar um clima de caos, de gerar o que chamo de ingovernabilidade induzida.
Para, por exemplo, chegar a uma situação na qual não possa ser realizada a Assembleia Constituinte (proposta pelo presidente Nicolás Maduro). Vejo que alguns setores começam a observar perigos na Constituinte, porque não está nada claro quem terá o poder depois dela.
Na Venezuela nada acontece por acaso, nem a chuva. Um ato como o de terça-feira, do helicóptero, não pode ser espontâneo. Porque se fosse, deveríamos nos perguntar, por exemplo, como chega um helicóptero armado ao Palácio do governo sem que exista um sistema de defesa aéreo? Como esse helicóptero fica 24 horas desaparecido?
Criar caos, suspender garantias políticas, não perder o poder. Porque perder o poder significará, acima de tudo, estar na mira da Justiça.
Isso não está tão claro.
Tudo indica que não foi.
Os riscos maiores são internos e não externos. A oposição vai continuar nas ruas, porque nossos direitos são permanentemente violados. Mas o risco maior é pelas disputas internas e não tanto pela oposição valente e decidida da Venezuela democrática.

