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Trump é acusado de negligenciar a Porto após furacão Maria

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SAN JUAN - As comparações críticas crescentes entre o comprometimento de Donald Trump nos esforços de recuperação do território americano de Porto Rico e nos estados do Texas e da Flórida — após a passagem dos furacões Harvey, Irma e Maria — puseram o presidente americano na defensiva. Ontem, pelo segundo dia consecutivo, ele elogiou publicamente o trabalho feito até agora pelo seu governo na ilha caribenha, um estado associado aos EUA desde 1952. Mesmo assim, muitos porto-riquenhos reclamam do tratamento que vêm recebendo de Washington, uma semana depois da passagem do Maria, que completou o serviço de destruição iniciado pelo Irma dias antes, deixando a ilha praticamente sem luz, água potável e telefonia celular. Apelando a uma ação rápida de Washington, o governador de Porto Rico, Ricardo Rosselló, lembrou que a ilha é parte dos EUA e reforçou a necessidade de apoio total do governo.

Após uma semana, Trump afinal prometeu visitar a ilha, na próxima terça-feira, e se comprometeu a pagar 100% dos custos de remoção de escombros e ajuda emergencial, em vez dos 75% usuais.

— É realmente catastrófico o que está acontecendo em Porto Rico — disse a repórteres, prometendo enviar suprimentos e água ao território.

Mas parece pouco. Democratas, incluindo Hillary Clinton, e celebridades como o cantor Marc Anthony, de origem porto-riquenha, criticaram o comprometimento do presidente. “Também somos cidadãos dos EUA”, escreveu Anthony numa série de reclamações no Twitter.

— O tratamento dá a impressão de que Trump não considera a ilha parte dos EUA como o Texas e a Flórida — afirmou ao “Washington Post” Timothy Naftali, historiador da Universidade de Nova York. — Lá, Trump queria que a mensagem fosse alta e clara: “Nós nos preocupamos.” Essa atenção tem sido extremamente insuficiente no caso do furacão Maria.

Na terça-feira, a Casa Branca confirmou que irá dispensar o estado, que está está praticamente falido, de cumprir a regra determinando que territórios precisam contribuir com verbas para o fundo federal de emergências. O Pentágono, por sua vez, prometeu dobrar o número de soldados envolvidos nos esforços de socorro para até cinco mil nos próximos dias. Ontem, Luis Gutiérrez, deputado democrata do Illinois, disse temer que o governo não esteja agindo tão rápido e com tanto vigor:

— Essa emergência não pode ser tratada como simplesmente mais uma tempestade, pelo Congresso, pelo presidente, pela Fema (o órgão federal de emergências).

Embora sejam americanos, os moradores da ilha falam espanhol e não podem votar nas eleições presidenciais. Além disso, têm apenas um representante sem direito a voto no Congresso em Washington. Na terça-feira, o governo federal já havia rechaçado as críticas e lembrou que há mais de dez mil funcionários em Porto Rico e nas vizinhas Ilhas Virgens americanas para ajudar na crise. A porta-voz da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders, também minimizou os questionamentos:

— Fizemos movimentos sem precedentes em termos de fundos federais para atender ao povo de Porto Rico e outros impactados pelas tempestades.

De categoria 5 (a mais forte), o furacão Maria devastou Porto Rico na semana passada, provocando uma crise humanitária. Os 3,4 milhões de moradores ficaram sem água e sem luz (mais da metade ainda estão sem eletricidade) e 95% dos telefones não funcionam. É difícil encontrar diesel e, com a escassez de água potável, outra preocupação vem crescendo: a possibilidade de uma crise de saúde pública causada pelas condições insalubres. Para doentes e idosos, o calor pode ser fatal. Até agora, apenas sete grandes hospitais foram reparados e aceitam pacientes, funcionando com geradores.

Por conta da escassez de suprimentos, apenas 20% das salas de operações estão em funcionamento no Hospital del Maestro, em San Juan, e sem energia suficiente, as máquinas de raio-X e de tomografia não funcionam. A forte presença de mosquitos também pode levar ao ressurgimento de doenças como zika, dengue e chicungunha, alertam médicos. A escassez de farmácias abertas é outro fator preocupante, especialmente para os moradores idosos e os pacientes de doenças crônicas.

No aeroporto de San Juan, passageiros estão vivendo dias de completo caos. O terminal praticamente não está funcionando, enquanto centenas de turistas e moradores que querem ir embora da ilha se amontoam pelos corredores, sem luz ou ar condicionado. As vias também seguem bloqueadas e há muitas casas sem teto. O forte calor deteriora a comida, e os moradores precisam apelar às barras de gelo para preservar os alimentos.

— É a vida ou a morte — lamentou na terça-feira Carmen Yulin Cruz, prefeita de San Juan, onde vivem 400 mil pessoas. — Há pessoas que não têm comida nem água há 14 dias.

Na terça-feira, em meio às acusações de negligência, Trump defendeu a resposta do governo:

— Todo mundo disse que o trabalho que fizemos em Porto Rico é incrível — afirmou, diante de repórteres. — Estamos muito orgulhosos. Acho que fizemos um trabalho muito bom.

Ontem, o senador democrata Charles Schumer, líder da minoria, fez coro às críticas:

— Com o devido respeito, presidente Trump, os esforços de socorro não estão indo bem, eles não são tão bons o suficiente — rebateu. — Qualquer americano que abrir um jornal ou ligar a TV saberá que Porto Rico não está indo bem.

Muitos também ficaram surpresos com o tom do presidente, que parecia culpar a ilha por sua situação. Em seus tuítes, um dia antes, Trump destacou os problemas de dívidas do território e a rede elétrica antiquada.

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