SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Turquia adotou nesta quarta-feira (29) uma lei de regulação das mídias sociais que reforça o controle das autoridades sobre as plataformas. Para defensores da liberdade de expressão, a nova regra vai aumentar a censura no país e pode contribuir para calar dissidentes e a oposição. A regulamentação foi aprovada pelo Parlamento turco com o apoio dos congressistas do Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP), do presidente Recep Tayyip Erdogan -a coalizão governista, formada também por uma sigla nacionalista menor, tem maioria no Legislativo. A lei requer que sites de mídia social estrangeiros que possuam mais de um milhão de usuários diários como Twitter e Facebook tenham representantes baseados na Turquia para responder às autoridades sobre o conteúdo postado e inclui prazo de 48 horas para remover materiais que forem considerados inadequados. As empresas também terão que armazenar na Turquia os dados de seus usuários no país, o que levantou dúvidas sobre a privacidade. Pelas novas regras, as companhias estão sujeitas a pagar multas de até US$ 700 mil (R$3,5 milhões), ter os anúncios bloqueados ou a banda larga cortada em até 90%, o que na prática restringe o acesso. Com a maioria da mídia tradicional tendo passado para o controle do governo na última década, os turcos têm recorrido às mídias sociais e a pequenos meios de comunicação para buscar vozes críticas e notícias independentes. Os cidadãos do país já enfrentam uma forte fiscalização de seu uso das mídias sociais e muitos foram processados por insultar Erdogan e seus ministros ou por criticar incursões militares do país no exterior ou a forma de lidar com o novo coronavírus. A lei foi adotada menos de um mês depois que Erdogan pediu para colocar ordem nas redes sociais, as quais tem criticado repetidamente por atos imorais. O conflito entre Erdogan e as redes sociais começou há anos. Em 2013, o Twitter e o Facebook foram usados para organizar grandes manifestações contra o governo. Um representante presidencial, Ibrahim Kalin, afirmou que as novas regras não levariam à censura, mas estabeleceriam limites comerciais e legais às plataformas de mídia social. Já um porta-voz do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos reagiu à nova lei dizendo que ela dará ao Estado ferramentas poderosas para exercer ainda mais controle sobre o cenário da mídia. Para Andrew Gardner, da Anistia Internacional, a lei reforçará as capacidades do governo de censurar os conteúdos digitais e perseguir os internautas. É uma violação clara do direito à liberdade de expressão online, afirmou, acrescentando que muitos internautas turcos já se autocensuram por medo de irritar as autoridades. "Esta lei anuncia um período sombrio para a censura na internet, afirmou Tom Porteous, da Human Rights Watch. A Turquia foi o segundo país do mundo com mais decisões judiciais relacionadas ao Twitter nos primeiros seis meses de 2019, segundo a empresa, e tem o maior número global de demandas legais contra a rede social.