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União contra extrema-direita perde força no pleito na França

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PARIS - Às vésperas do segundo turno do pleito presidencial francês, a chamada frente republicana — união de diferentes campos políticos e de eleitores de variadas tendências para barrar a ascensão da extrema-direita ao poder — já não mostra a mesma força do passado. A eleição de Marine Le Pen, líder da direita radical da Frente Nacional (FN), para disputar a fase final da corrida pelo Palácio do Eliseu contra o candidato centrista Emmanuel Macron, do movimento Em Marcha!, não suscitou a onda de indignação e mobilização provocada em 2002. Naquele ano, a frente se formou na passagem de Jean-Marie Le Pen, pai da candidata e um dos fundadores da FN, ao segundo turno do embate presidencial, num duelo com o conservador Jacques Chirac.

Líderes políticos, sindicatos, intelectuais e eleitores renegam o voto no extremismo de direita, mas não garantem apoio ao seu oponente, adotando a regra do “ni-ni” (nem-nem): nem Le Pen, nem Macron. A fragilidade da frente republicana, além de gerar polêmica no país, abre caminho para o aumento de votos brancos, nulos e de abstenções, o que em tese reforça a candidatura de Marine Le Pen.

Jean-Luc Mélenchon, que obteve 19,5% de votos (7 milhões) no primeiro turno como candidato da frente de esquerda radical França Insubmissa, recebeu críticas por não declarar seu voto a favor de Macron, embora tenha enfatizado sua rejeição à FN. Ele preferiu consultar os militantes da França Insubmissa, e dos mais de 250 mil que responderam, dois terços afirmaram que não votarão no candidato do movimento Em Marcha!. Segundo os resultados divulgados na terça-feira, 36,12% optaram pelo voto branco ou nulo, outros 29,05% pela abstenção, e 34,83% por Macron.

Os sindicatos franceses também não alcançaram uma posição comum para o segundo turno. O secretário-geral da CGT, Philippe Martinez, defendeu o voto de barragem à extrema-direita, mas outros sindicatos, como a FSU e o SUD convocaram seus associados a “derrotarem os dois candidatos”. Na semana passada, estudantes se manifestaram em várias cidades da França também pelo “ni-ni”.

Entre os intelectuais, o historiador Emmanuel Todd explicou que “votar na FN é votar na xenofobia, mas votar Macron é a aceitação da servidão”. Ao declarar que não votará, acrescentou que o importante, hoje, é “preservar uma outra França, definida pela abstenção”. Já o pensador Alain Finkielkraut exprimiu seu voto em Macron a contragosto, pois não visualiza nada de “desejável na sociedade líquida da qual ele é campeão”, mas ressaltou que uma vitória de Le Pen “colocaria a França em chamas”. Já a ex-musa Brigitte Bardot, de conhecido passado favorável à extrema-direita, emergiu na terça-feira na campanha, via Twitter, convidando “os que amam e respeitam os animais a não votar em Macron!”.

No Partido Socialista (PS), do presidente François Hollande ao candidato derrotado no primeiro turno, Benoît Hamon, todos os quadros apelaram ao voto em Macron. Mesma recomendação no partido conservador Os Republicanos (LR, na sigla em francês), embora tenham surgido dissensões internas com adeptos declarados do “ni-ni”.

Pierre Martin, do Instituto de Estudos Políticos de Grenoble, lista três razões que explicam diferenças entre 2002 e 2017. A primeira delas seria o “fator surpresa” e o “choque” provocado pela presença de Jean-Marie Le Pen, há 15 anos, no segundo turno, o que não é o caso hoje. A segunda, o processo de “desdemonização” do partido deflagrado por sua filha, Marine, pela maquiagem do discurso extremista. Em terceiro, as mudanças ocorridas no país neste período.

— Houve um aumento das desigualdades, do desemprego e de ameaças à proteção social, e também o fato de que a maioria dos franceses disse “não” ao tratado constitucional europeu, no referendo de 2005, e não foram ouvidos. Hoje, os eleitores se sentem muito menos solidários às elites políticas do que em 2002.

O analista cita, ainda, a influência das sondagens, que apontam a vitória de Macron com uma margem confortável (60% a 40%, na última divulgada na terça-feira), e sua condição de “candidato liberal” em meio a uma esquerda frustrada com sua exclusão da disputa.

— Mélenchon sabe que será a principal força de oposição de esquerda do futuro governo, e não tem nenhum interesse em se apresentar como cúmplice de Macron, que tem um programa que agride seus eleitores. Neste amplo contexto, não é surpreendente que não haja o forte clima de tensão de 2002.

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