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Vitória de independentistas na Catalunha frustra governo espanhol

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MADRI — Os independentistas, embora com dois deputados a menos, mantêm o controle do Parlamento catalão, alcançando a maioria absoluta de cadeiras. As eleições regionais desta quinta-feira mostraram que os planos secessionistas, frustrados pela intervenção do governo central na autonomia catalã, não se traduziram num desgaste para os separatistas, como se imaginava. A deterioração se refletiu, porém, no Partido Popular (PP), com uma queda livre de 11 a apenas três cadeiras, sendo a última força política, tanto em votos como em representação parlamentar.

— É um resultado que ninguém pode discutir. A República catalã venceu a monarquia do 155 (artigo da Constituição que suspendeu a autonomia catalã). Que escutem bem: o Estado espanhol foi derrotado. Rajoy e seus aliados perderam e ganharam uma bofetada dos catalães. Há uma maioria de votos que pede um referendo — celebrou Carles Puigdemont, presidente catalão deposto que, no final de outubro, partiu para a Bélgica para evitar a prisão.

Deste pleito, marcado por uma participação recorde de 81,95% e longas filas, o partido com mais votos e mais cadeiras no Parlamento catalão, no entanto, foi o Cidadãos, embora sua candidata, Inés Arrimadas, não vá conseguir apoio suficiente para governar e, diante do panorama, acabará como líder da oposição.

— Pela primeira vez, uma força constitucionalista ganha as eleições na Catalunha, e é o Cidadãos. Continuaremos lutando com mais força por mais votos, mais deputados — afirmou Arrimadas.

Como a Catalunha é a única comunidade autônoma sem uma lei eleitoral própria, porque nunca houve consenso para aprová-la, aplica-se o regime eleitoral geral espanhol, e a distribuição dos votos se faz por províncias, beneficiando Lérida e Gerona, feudos independentistas que computam mais deputados do que proporcionalmente seria o correspondente. Isso é o que faz com que, sem maioria absoluta de votos, os independentistas acabem tendo maioria absoluta de cadeiras no Parlamento.

Contrariando as previsões, o neoindependentista Juntos pela Catalunha, coalizão encabeçada por Puigdemont, recebeu mais votos (34 cadeiras) do que o partido originalmente separatista Esquerda Republicana da Catalunha (ERC, com 32 deputados) — cujo presidente, Oriol Junqueras, está preso desde 2 de novembro, acusado de insurreição — mantendo a hegemonia do Partido Democrata Europeu Catalão (PDeCat).

— Temos que reabrir o Parlamento e ser leais ao mandato democrático — afirmou Marta Rovira, secretária-geral da ERC. — Os resultados dizem que há número suficiente de independentistas que querem uma república e que ganhamos as eleições apesar da ofensiva policial e judicial.

As incertezas, no entanto, se mantêm. A ERC e a radical Candidatura de Unidade Popular (CUP), que embora tenha sido castigada continua tendo um papel estratégico para a formação da maioria absoluta, apoiariam Puigdemont como presidente? O ex-presidente catalão voltaria à Espanha para a posse em sua cadeira de deputado? O que se sabe, com certeza, é que, se pisar em solo espanhol, Puigdemont será imediatamente detido, o que impediria sua investidura.

— Puigdemont não poderá tomar posse. Os protagonistas independentistas serão novos interlocutores, novos líderes para poder gerar um clima de acordo, de negociação e aproximação, para que a defesa dos direitos da cidadania catalã seja mais eficaz. Os que levaram a Catalunha aonde está hoje, a esta situação, não poderão presidir o novo governo — afirma o jurista catalão Antonio Rovira, professor da Universidade de Madri.

Na jornada de incertezas e expectativas, as urnas corroboraram: a Catalunha está, verdadeiramente, partida ao meio. Em termos absolutos, os blocos sofreram poucas mudanças, comparando-se com as últimas eleições catalãs: em 2015, os independentistas obtiveram 47,7% dos votos (agora 47,54%); e os não-independentistas, 41,2% (agora 43,55%). A coalizão Catalunha em Comum-Podemos, com sua postura não-independentista, mas favorável à autodeterminação, ficaria entre um bloco e outro, com 7,43% dos votos. Considerando, no entanto, a coalizão, o bloco contrário à secessão obteve cerca de 1,7 milhão de votos a mais. A primazia dentro do bloco separatista se mantém com o PDeCat, embora a ERC tenha saído reforçada. No bloco unionista, confirma-se a transferência da supremacia dos socialistas, que obtiveram 17 cadeiras (uma a mais que em 2015) para o Cidadãos (com 37 cadeiras), e se observa o afundamento do PP.

— Nenhum dos dois blocos alcançou 50% dos votos e, portanto, nenhum pode dizer que representa a Catalunha — afirma o sociólogo Juan José Toharia, presidente do instituto de pesquisa de opinião pública Metroscopia. — O enfrentamento destes 40 anos entre Catalunha e Espanha se transformou no enfrentamento de uma metade da Catalunha contra a outra metade.

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