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Volta para casa em áreas mais atingidas revela cenário de devastação no Sul da Flórida

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ISLAMORADA E DEERFIELD BEACH, EUA — “Encontrei um troféu de pescaria, de quem será? Vou guardar”, disse Patty Purdo para si mesma, ao voltar para o local onde ficava sua casa em Islamorada, ilha das chamadas Florida Keys, na rota do olho do furacão Irma. O fenômeno mostrou ali a fúria que era esperada em toda sua trajetória nos EUA e que castigou com força o Caribe. O caos na região é generalizado e a inspeção de Patty foi minuciosa, em busca de coisas valiosas, material e sentimentalmente. E isso não foi um caso isolado: terça-feira foi o dia de muitos moradores do estado contabilizarem os prejuízos causados pela tempestade tropical, que se não chegou a ser apocalíptica, tampouco passou incólume no país: foram 17 mortos na Flórida (a maioria), na Geórgia e na Carolina do Sul.

Em meio à devastação do bairro onde vive, pequenas “descobertas” da garçonete, como este troféu, lhe davam um pouco de alegria. Ela foi uma das primeiras a voltar e ficou responsável por fazer o inventário dos vizinhos que continuavam em abrigos. Mas não havia muito a catalogar: a destruição foi total, a ponto de ser difícil identificar onde acabava uma casa e começava a outra.

— Perto de tantas mansões de gente rica, precisamos de casas para morar — afirmou, desolada. — Tudo o que fazemos aqui é servir um café, preparar um drinque, para que estes ricaços se sintam em sua segunda casa. Estamos sem a nossa única.

Patty foi uma das vítimas da região, que teve, segundo o governo, 25% das casas destruídas e outros 60% com danos. O nível dos estragos comprova que, se não fosse a retirada em massa, muitos morreriam ali.

— É incrível ver isso e saber que ninguém morreu. Mesmo assim é muito triste, são casas de pessoas trabalhadoras, a professora da minha filha morava ali — contou Alyne Johnson, apontando escombros. — E sabemos que muitos sequer tinham seguro, possuíam apenas o suficiente para viver.

Muitos bairros pareciam ter sido atingidos por um forte furacão, apesar do lindo mar azul turquesa ao fundo, num dos principais balneários do país, formado por pequenas ilhas ligadas a uma estrada com um visual único — devido às suas 46 pontes, nenhuma delas com danos graves. Ontem, carros conversíveis e caminhonetes carregando iates voltaram para o local, reaberto aos moradores, para que tentem retomar suas vidas e seus negócios. Uma frota de carros oficiais — como bombeiros e dezenas de caminhões da companhia de energia — percorria as pequenas ilhas, onde restos de geladeiras, camas e casas se espalhavam em trechos dos canteiros da panorâmica estrada.

— Não tenho dúvidas, vai demorar anos para voltar ao que éramos — lamentou Diana López, cuja casa, por sorte, ficou intacta. — É muito triste ver este cenário num verdadeiro paraíso, que vai sofrer ainda mais agora, com a queda do turismo.

Mesmo em locais onde o Irma foi mais ameno, o dia foi de conferir os prejuízos. Franklin Park, em Deefield Beach, ao norte de Miami, lamentava seu quintal completamente destruído:

— Meu seguro não cobre o que fica do lado de fora da casa. E eu havia gastado há pouco tempo US$ 8 mil só nessa cerca — contou. — Não sei quanto tempo vou precisar para consertar tudo isso.

Pior era a situação de Bill, seu vizinho que preferiu não dar o sobrenome: ele não tem seguro de nada, e o Irma destruiu o telhado de sua casa, abrindo um rombo exatamente sobre a sala.

— Vou ter que trabalhar muito mais para dar conta disso. Enquanto estava na casa de amigos, já imaginava que teria algum prejuízo, mas não esperava um buraco no telhado deste tamanho.

Na tarde de ontem, segundo o governo da Flórida, ao menos 190 mil pessoas continuavam em abrigos, que no auge do furacão receberam 220 mil pessoas. Sem contar os que ainda estavam fora do estado, fugindo da tempestade — um total de 6,5 milhões de pessoas foram retiradas, recorde no país. O prejuízo pode passar de US$ 40 bilhões, segundo empresas de consultoria para seguradoras.

— Tentei abrir a loja hoje (ontem) mas não dá, a água entrou aqui, estou sem energia, não tem como ficar com este calor e sem máquina de cartão de crédito — disse a peruana Janne Alexander, que tem uma loja de roupas em Deerfield Beach.

Nos locais menos afetados, como Miami, a falta de eletricidade era a grande reclamação. Placas em frente às casas tentavam alertar para a falta de luz, que contrastava, já na noite anterior, com a normalidade do centro e em Miami Beach, que esbanjavam luzes nas fachadas de hotéis e prédios comerciais. Mas 4,4 milhões de casas e comércios continuavam no escuro no estado, e a eletricidade não voltou nem nos parques da Disney em Orlando — o que não impediu que eles reabrissem as portas.

Já no Caribe, a destruição foi muito maior. Além de dezenas de mortos, muitas ilhas ficaram praticamente destroçadas. Quase um terço dos edifícios da parte holandesa da ilha caribenha de St. Martin foi destruído e mais de 90%, danificados pelo Irma, segundo a Cruz Vermelha. O presidente francês, Emmanuel Macron, e o rei da Holanda, Willem-Alexander, viajaram ontem para constatar a extensão “sem precedentes” dos danos e tentar amenizar o descontentamento dos moradores.

Também enfrentando críticas, o chanceler britânicos, Boris Johnson, era esperado no Caribe. O governo anunciou o desbloqueio de 32 milhões de libras de ajuda de emergência para os 88 mil britânicos da região e enviou dez aviões com kits de emergência, comida e água. A Venezuela, por sua vez, enviará para Cuba, onde dez pessoas morreram, e para outras ilhas, cerca de 30 toneladas de alimentos, água e material de primeira necessidade.

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