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Mãe comprava algodão doce para filho quando ele foi morto com tiro na cabeça

Só tinha 2 anos

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RIO — O clima era de desespero na manhã deste sábado na porta da emergência do Hospital estadual Getúlio Vargas, na Penha, Zona Norte do Rio. Mãe do menino Benjamin, morto após ser baleado na cabeça durante um confronto entre policiais militares e traficantes em um dos acessos ao Complexo do Alemão, Paloma Maria Novaes, de 29 anos, nem sequer parecia se importar com os curativos no braço esquerdo e na barriga — ferimentos provocados por tiros de raspão durante o fogo cruzado entre policiais e integrantes de um bando, na noite desta sexta-feira. Ela precisou, por diversas, vezes ser amparada por parentes que a acompanhavam no local.

— Estava voltando da Tijuca e parei para comprar um algodão doce para o Benjamim. Então os policiais começaram atirar. Primeiro eu não percebi que meu filho estava baleado. Depois, vi que ele havia tomado um tiro na cabeça — disse ela, bastante abalada, sentada em uma cadeira e amparada pelo pai do seu filho. — Isso não pode ficar assim, eu quero justiça. Hoje eu vou sair daqui sem o meu filho nos braços. Ele só tinha um aninho, um inocente.

LOCAL DE GRANDE MOVIMENTO

O tiroteio aconteceu em um local de grande movimento, quase na esquina entre as avenidas Itaoca e Itararé, no acesso à comunidade de Nova Brasília, uma das que compõem o Complexo do Alemão. No lugar há pontos de ônibus, lojas e barracas de ambulantes que vendem comida e outros produtos. Na noite quente de sexta-feira, estava lotado de pessoas no momento do confronto.

Na manhã desta sábado, a Polícia Militar divulgou em sua conta do Twitter uma nota em que dá sua versão do caso. Segundo a nota, policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Fazendinha estavam em um carro em deslocamento pela avenida Itaoca quando foram atacados pelos ocupantes de um jipe Renegade por volta das 20h30 de sexta-feira, o que provocou o confronto. Ainda segundo a nota, três suspeitos foram feridos, dois dos quais conseguiram fugiram para a Nova Brasília. A PM disse ainda que foram apreendidos, além do jipe Renegade, um fuzil calibre 5.56, um revólver calibre 38, quatro carregadores de fuzil e uma "pequena quantidade de drogas".

De acordo com relatos de moradores, o carro da PM estava no local há algum tempo quando o tiroteio começou. Na troca de tiros com os criminosos, balas foram disparadas para todos os lados, contaram os moradores em redes sociais. Ontem à noite, policiais militares haviam relatado que o confronto começou quando o jipe em que estavam os criminosos foi interceptado pelos PMs ocupantes do veículo da UPP.

Mais dois moradores da região foram mortos no tiroteio e identificados na manhã deste sábado: José Roberto da Silva, de 58 anos, e Maria Lúcia da Costa, também de 58 anos.

"ALEGRE, RIA MUITO E GOSTAVA DE BRINCAR"

Parentes contaram que Benjamin era bastante risonho — "alegre, ria muito e gostava de brincar":

— Tudo aconteceu na hora em que que eu parei para comprar o algodão doce, e ele nem chegou a comer o doce. Como vou viver sem meu filho? Hoje eu acordei cedo com o Benjamin estava sorrindo para mim. Me deu um beijo. Não quero que fique assim. E não vai ficar, porque eu vou correr atrás — lamentou ela.

Ao lado de Paloma, estava o pai do menino, Fábio Antonio da Silva, de 38 anos. Ele é gesseiro, mas está desempregado. Chegou ao hospital no fim da noite desta sexta-feira, após receber a notícia da morte do filho.

— Confronto não resolve a situação do nosso país. Essa violência não tem mais controle e a sociedade está cansada de ver trabalhadores e crianças morrendo. A gente pergunta aos governantes: "Até quando a violência dentro da favela vai ser respondida dessa forma"? No meio disso são os inocentes que pagam — disse ele.

Fábio ressaltou que eles querem a apuração e saber de onde partiu o disparo que atingiu a cabeça do filho:

— A vida dele (Benjamin) foi interrompida estupidamente por um sistema falido. A gente quer saber, de fato, quem foi o autor do disparo. Que corram atrás da mesma forma que estão fazendo para saber quem fez aquilo com a vereadora e o motorista dela — desabafou.

Um vídeo que circula nas redes sociais mostra o local em que três pessoas foram mortas e pelo menos quatro ficaram feridas no Complexo do Alemão. Nas imagens, é possível ver moradores revoltados após uma pessoa ser baleada na comunidade. Em meio à confusão e a grande aglomeração de pessoas, policiais que estavam no local atiram para o alto para dispersar a multidão.

Durante esta madrugada, policiais civis foram até o Hospital Getúlio Vargas e conversaram com parentes e com Paloma. Ela deve comparecer, posteriormente, à delegacia para prestar seu depoimento. O caso está sendo investigado pela Delegacia de Homicídios.

Os avós da criança também estavam no hospital. Desesperada, a avó do menino, Ângela Maria de Novaes, precisou ser amparada pelo avô da criança e por outros parentes. Ela contou que voltava da Tijuca, bairro onde trabalha vendendo balas — a filha e o neto estavam com ela. Ângela acusou os policiais pela morte do neto durante o confronto no Complexo do Alemão. A situação da família de Benjamin é complicada. O pai do bebê, Fábio Antonio da Silva, que tem outros nove filhos, está desempregado.

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