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Investigação do MP detalha ações sociais da Universal em escolas

RIO - O inquérito do Ministério Público que baseou a denúncia contra Marcelo Crivella que resultou na decisão judicial desta segunda-feira mostra que a Igreja Universal, da qual o prefeito é bispo licenciado, realizou ações sociais em pelo menos duas escolas da prefeitura. Em um desses atos, realizado em novembro na Escola Municipal José Abílio Borges, no Humaitá, ocorreu um incidente. A diretora interferiu porque integrantes da igreja tentaram divulgar em um cartaz que ofereceriam “assistência religiosa no local”. Ela discordou por entender que o estado é laico e vetou a exibição. Mesmo assim, imagens do cartaz chegaram a ser exibidas na TV em outro ponto da escola. Os integrantes da igreja trabalharam uniformizados com blusas com o logotipo da instituição e chegaram a distribuir cestas básicas às famílias. A outra atividade se deu no Complexo da Maré no qual teria havido sorteio de cesta básica, corte de cabelo e avaliação odontológica dos estudantes. Segundo a diretora do Ciep Ministro Gustavo Capanema, o evento foi realizado em em setembro de 2017, com autorização da Coordenadoria Regional de Educação. A reunião foi divulgada à comunidade acadêmica por panfletos com a logo da igreja. No dia do evento, todas as salas de aula foram usadas e faixas da igreja espalhadas pela instituição.

As peças do Ministério Público que orientaram o inquérito trazem detalhes curiosos sobre as investigações que deram origem à denúncia contra o prefeito. Um deles revela bastidores da iniciativa tomada em 2017 pela Guarda Municipal de realizar um censo religioso na instituição, a pretexto de criar um serviço de assistência espiritual na instituição, como já existe na Polícia Militar. Na época, o projeto virou motivo de polêmica porque o questionário original tinha um item no qual perguntava qual era a religião do agente. O inquérito revela que a ideia partiu do agente Ramon da Silva Paz, obreiro da Igreja Internacional da Graça de Deus em São Gonçalo, que havia protocolado no fim de junho de 2015, ainda durante o governo do ex-prefeito Eduardo Paes.

Em sua proposta entregue à GM, o agente afirmava que o serviço “tinha o objetivo de fornecer aconselhamento em ambiente oferecido pela instituição, sem vinculação religiosa direta “. O comando da Guarda Municipal da época ficou de analisar a proposta. As peças do inquérito mostram, no entanto, que a ideia praticamente ficou paralisada por dois anos. Apenas em junho de 2017 foi retomada quando um capelão da PM foi convidado para participar do lançamento do projeto. Procurado pelo GLOBO, o GM ainda não foi localizado.

Sobre a realização de um evento de Cinema Cristão na Cidade das Artes, um ofício da direção da instituição esclarece como se deu a cessão do espaço. Segundo o documento, “o referido evento foi recepcionado (...) por meio de solicitação do gabinete do prefeito”, dentro de uma cota que o executivo tem direito pelo uso do espaço. No entanto, o presidente da Fundação Cidade das Artes, André Marini, argumentou que a cessão do espaço para esse tipo de evento não contraria os estatutos da entidade. “A cultura não pode ser discriminada pelo rótulo de ser religiosa, uma vez que não deixa de ser um festival de cinema”, escreveu Marini.

Uma das peças do inquérito faz ainda menção a uma representação feita por Crivella ao MP 2011, quando ele ainda era senador. Na representação, ele questionava o fato de a Justiça ter proibido a realização de cultos religiosos em transporte público. Na avaliação do então senador, isso poderia representar uma violação a liberada de culto. Na época, o MP discordou da interpretação do senador. No entendimento dos promotores, como os serviços prestados em transportes de massa como trens e metrôs são públicos, permitir cultos em seu interior estaria em desacordo com o princípio que o estado é laico.

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