SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Inaugurado há dois meses para atender a infectados da Covid-19, o Hospital de Campanha do Anhembi, em São Paulo, já recebeu mais de 4.000 pacientes, dos quais 25 morreram. Outros 3.771 foram curados com o tratamento. Quem passou pelo local, que tem hoje 221 pacientes, deixou histórias como a de José Benedito, 77, internado no mesmo dia que sua esposa, dona Maria Lourdes, 79. Lá foram separados: José ficou no setor masculino, Maria no feminino. Diariamente se encontravam no corredores que dividem ao meio os 571 leitos ativos --48 deles de estabilização. Ela recebeu alta, ele seguiu sob cuidados médicos para enfrentar as noites claras e frias vividas no local. A estrutura foi construída no pavilhão de exposições do Anhembi, que tem 76 mil m2 e não dispõe de dimmer --usado para regular a luminosidade. Ou seja, não há como apagar lâmpadas. O hospital tampouco conta com aquecedor. Com a chegada do inverno, o frio tomou o ambiente. A solução foi caprichar na quantidade de cobertores, conseguir meias e distribuir tapa-olhos para de noite. "Antes era facinho. Eu via ela, ela vinha me ver. Aí ela recebeu alta, foi embora e eu fiquei sozinho [risos]. Sozinho não, porque tem o pessoal aqui, né", diz José à reportagem, com o bom humor de quem esperava, de banho tomado, o filho chegar para buscá-lo. Acabara de receber alta. José e Maria estiveram nos leitos sob cuidados da Iabas (Instituto de Atenção Básica e Avançada à Saúde). O hospital de campanha é divido em duas estruturas, cada uma com administração, protocolos e equipe independentes, ambas destinadas a casos de baixa ou média complexidade. O vasto pavilhão do Iabas, entre a marginal Tietê e a avenida Olavo Fontoura, contrasta com o teto mais baixo e o ambiente mais escuro do hospital da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina), que fica no Palácio de Convenções e onde estava Don Sanches, 69. Segundo ele, são quase 70 países visitados com sua guitarra. Após 48 anos no exterior e em cruzeiros, ele queria consolidar carreira de músico no Brasil. O plano era colocar de pé o projeto batizado de Tributo ao Síndico, homenagem a Tim Maia. "Tudo corria bem, até que o vírus me parou", diz. Ele estava num dos leitos do setor amarelo do hospital da SPDM, que não separa homens e mulheres já que dispõe de cortinas e paredes que isolam cada uma das camas. O hospital setoriza o ambiente usando o sistema News (National Early Warning Score), que, segundo cada sintoma e uma série de fatores, divide os pacientes pelo grau de risco: do azul, o mais leve, ao vermelho, de estabilização. O método foi adotado após as primeiras semanas do hospital para otimizar a chegada e o direcionamento dos pacientes. Os registros são feitos em folhas de papel padronizadas. "Caí com guitarra e tudo, a perna enfraqueceu. Tentei levantar de novo, não deu. Comecei a sufocar. Esse vírus pega a hora de respirar. Quando for respirar de novo, já não consegue", explica Sanches. Ele disse que a primeira coisa que fará quando voltar para casa é tocar. Otaviano de Souza, 73, músico amador, revela desejo semelhante. Ele tinha acabado de falar com a filha por videoconferência e disse que teria alta em alguns dias, após seis noites internado. O ritmo intenso de entrada e saída de pacientes contrasta com a mentalidade resiliente dos pacientes, como a de Maria de Sousa, 53. "É um dia após outro, isso aqui é uma luta constante, diária e lenta", diz a ex-enfermeira, que há cerca de 16 anos deixou a profissão. Queria ter mais tempo com os filhos. Um deles seguiu a mãe e trabalha na linha de frente no atendimento a pacientes contra a Covid-19. Foi contaminado com a doença, mas se recuperou e voltou ao serviço. "Você começa a dar mais valor a pequenas coisas que passam despercebidas no dia a dia", diz. Há mais de uma semana internada, a ex-enfermeira conta que ganhou de presente no período amigos e amigas que pretende levar para fora do hospital: pacientes, enfermeiras e médicos. No total, são mais de 2.700 profissionais no Hospital de Campanha do Anhembi. Eles contam com assistência psicológica individual e atividades coletivas (como meditação ou grupos musicais). "As ações são voltadas para a redução do estresse", diz Natália Soares, do Iabas. "Isso é uma dificuldade nossa enquanto trabalhador da saúde: a gente cuida, mas acha que não precisa ser cuidado". Tassiana Sacchi, diretora médica, diz que ela conta que a intensidade já foi maior, mas que, caso a demanda volte a aumentar, o hospital pode ativar novos leitos (a estrutura tem capacidade total para atender mais de 1.000 pacientes).