Mas já tentou pedir uma garrafa de Château Lafite Rothschild pelas bandas cariocas?
Bem-vindo à capital mais cara do mundo para o consumidor casual do mercado de luxo --aquele atrás de um Rolex ou um mimo da joalheria Cartier, por exemplo.
É o que mostra a Global Wealth and Lifestyle Report 2020. Lançada nesta quinta (16), a pesquisa feita pelo banco suíço Julius Baer hierarquizou 28 cidades a partir dos preços de seu mercado de luxo.
O Rio está em 16° no ranking, que traz três cidades asiáticas (Hong Kong, Xangai e Tóquio) no pódio, com Nova York em seguida.
Chamada de "Manhattan do Brasil", a capital fluminense é a mais onerosa da lista em cinco categorias: joias, bolsa feminina, relógio, uísque e vinho.
Impostos, aqui, são o vilão, diz à reportagem Esteban Polidura, gerente de Negócios para América Latina do Julius Baer. "Isso se deve sobretudo a taxas de até 300% em itens de alto valor. Por exemplo, no mundo da joalheria, o mesmo produto no Rio pode custar o dobro do vendido na América do Norte ou na Europa."
Em compensação, a cidade cai para 25° quando o assunto são casamentos deluxe: os ricos brasileiros gastam US$ 38,2 mil (R$ 133 mil) em média, 15% dos US$ 218 mil (R$ 910 mil) investidos pelos nova-iorquinos, campeões da categoria.
Ser fitness, para a elite carioca, também fica mais em conta: o custo médio é de US$ 1.570, ou R$ 6.560, atrás só de Mumbai. Consideram-se taxas de adesão mais 50 sessões de personal trainer.
A pesquisa é baseada numa análise de 20 bens e serviços de luxo oferecidos nessas 28 cidades. Propriedades, carros e casamentos têm, juntos, peso de 40% no resultado; os outros 17 itens somam 60%.
Quando aplicado ao Rio, o levantamento exemplifica bem o que Marcelo Neri, diretor do FGV Social, chama de "cidade partida". Aqui, a desigualdade é "visível a olho nu."
"Atravesse a rua Marquês de São Vicente [onde fica a PUC-RJ, na Gávea] e saia de uma região com índices europeus de desenvolvimento para outra de níveis africanos, a Rocinha."
Na região administrativa mais desigual do Rio, a Barra da Tijuca, são vizinhos o Rio das Pedras, bairro dominado por milicianos, e o shopping carioca mais luxuoso.
É no Village Mall que se digere o custo de viver como VIP.
Antes de comprar na Prada, os visitantes podem ir ao Del Plin. Especializado em gastronomia francesa e italiana, o restaurante serve antipasti/entrée (entrada), primi piatti/premier cours (primeiro prato) e second/le plat (segundo prato), fora o dolci/dessert (sobremesa).
São R$ 297 para combinar, digamos, carpaccio de polvo, nhoque de baroa ao molho cremoso de camarão com conhaque e raspas de limão siciliano, costeletas de cordeiro ao molho de vinho tinto com risoto de grana padano e espuma de hortelã e uma panna cotta. Ah, mais bebida e gorjeta.
A socialite Narcisa Tamborindeguy, 53, aponta o "mall" como meca carioca do luxo.
Autodefinida "the face of Rio" (a cara do Rio), a ex-participante do reality "Mulheres Ricas" habita há anos o imaginário da elite carioca.
Isso por episódios como usar um megafone para falar com frequentadores da piscina do Copacabana Palace, que pagam R$ 32 por 500 ml da Acqua Panna, água importada da Toscana.
"Ai, que loucura", como diz o bordão de Narcisa, é o "custo Rio". Mas São Paulo, ela diz, é "uma cidade mais cara e com mais lojas de grife".
De acordo com ela está Amnon Armoni, professor de gestão de luxo da Faap. Ele não entendeu por que o Julius Baer não escolheu São Paulo, "que representa mais da metade das vendas de luxo no país".
"Segundo Polidura, do Julius Baer, o nicho carioca tem "um mix interessante de consumidores domésticos e internacionais".
Não seria justo colocar toda a culpa no Rio, segundo Armoni. "O mercado de luxo no Brasil vem sofrendo muito com a crise econômica dos últimos anos."
"Mas a classe AAA não tá nem aí, vai comprar lá fora. Só compra aqui se estiver ocupada e não for viajar. Uma coisa que ela não gosta é não ter a mesma oferta de produtos que você encontraria em Paris, Nova York."
É o segmento que deixa no chinelo até a classe A, que abarca quem possui renda mensal familiar de ao menos R$ 25,5 mil (ante média de R$ 720 da D/E), segundo a Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa.
A florista Nicole Tamborindeguy, 35, frequenta há mais de uma década colunas sociais. Sobrinha de Narcisa, essa moradora do Leblon prefere não falar sobre o preço da vida no Rio. "Hoje em dia é tão delicada essa questão da desigualdade que falar sobre dinheiro e quanto custa pra viver aqui é chato, não é algo que a gente se sinta à vontade, fica bobo."
Dona da floricultura My Bloom, ela é "uma carioca, assim, orgulhosíssima", mas acha que a cidade deixa a dever na prestação de serviços. "Pagar profissional do Rio, sei lá, se você quer consertar seu ar [condicionado], trocar uma esquadria, marcar com motorista pra te levar a algum lugar..."
Uma coisa é certa para esta Tamborindeguy: a ideia de um Rio de altos luxos, o das peruas, ficou no passado. "E é uma tendência mundial que não exista mais. A gente tá vendo acontecer na família real [britânica], hoje é cafona."
"Tá mudando tudo, a consciência. Esse acesso à tecnologia fez a gente repensar muita coisa", diz Nicole. "Pessoas querem dar um passo atrás, 'home made' [produtos caseiros], conexão com natureza, com espiritualidade, sabe?"
Uma outra "face of Rio" da elite carioca.
