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Do lixo para a panela. "Mas é gostoso que só provando..."

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Na panela o cheiro até que é bom. Não dá para reclamar. No prato melhor ainda. E na hora que a barriga reclama... aí, então, poucos são os que resistem à tentação de um farto prato de sopa ou de um guisado bem preparado, com tomate e pimentão para refogar, ou uma  boa posta de bife acebolado. É claro que nesse caso, uma saladinha crua sempre é muito bem-vinda.

Mas fora da panela..., o cheiro é insuportável.

 



A batata, cebola, o tomate, o pimentão, a cenoura e o repolho, estão em avançado estado de decomposição  e são coletados na Central de Abastecimento S.A. (Ceasa). Mesmo assim e depois de uma boa maquiagem, esses produtos, são levados às feiras da cidade e comercializados a razão de R $ 1,00 a sacolinha.

“Ninguém até hoje reclamou”, comenta Raimundo Albuquerque, que há quase 15 anos garante o sustento da família com a venda de produtos catados ou adquiridos de cerealistas na Ceasa. “A gente limpa bem e vende até para donos de restaurante”, arremata.


 
Apesar da aparente tranqüilidade do vendedor, ele mal pode imaginar que por trás  da sacolinha, que atrai legiões de compradores, se esconde o perigo, que pode aparecer na forma de leptospirose, salmonelas, febre tifóide, doenças diarréicas, infecção por estafilacocos, parasitoses intestinais, ameba, giárdia e hepatite A.

Depois de examinar uma porção de batatas, uma pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisa do Amazonas (Inpa), que pediu para não ser identificada, afirmou que os fatores patogênicos, causados pela bactéria Erwinia, não causam mal às pessoas.

Ela alertou, entretanto, para os possíveis agentes que fazem parte da cadeia de contaminação, com ênfase para as doenças virais e as que são causadas por bactérias. “Nunca imaginei que uma batata dessas pudesse ser reaproveitada e vendida. Fico surpresa. É uma batata velha e repulsiva”, condena.

Difícil é definir a quantidade de batata, tomate, cebola  e pimentão estragados, vendidos e consumidos por uma boa parcela da população de Manaus há mais de 20 anos. “São muitas toneladas, não dá para calcular”, afirma um cerealista, que preferiu não se identificar. Só eu importo 60 toneladas de hortifrutigranjeiros de São Paulo e de outros estados”, explica.

Ameaça à saúde

A maioria dos ceralista entrevistado diz que não vende produtos inservíveis para o consumo humano na Central de Abastecimento S.A. (Ceasa). Ao contrário do que foi constatado pela reportagem, todos afirmam que se o produto está deteriorado ou em estado de decomposição vai para o lixo.
 
Só que a verdade demora apenas o tempo de chegar o primeiro comprador, que escolhe o produto e paga R$ 25 por uma saca de batata ou de cebola ou por uma caixa de tomate em precário estado de conservação.

As desculpas, então, chegam fáceis e imediatas, mas nem uma capaz de convencer a pesquisadora do Inpa que, que fez sérias restrições ao consumo desses produtos por considerá-los uma ameaça para a saúde da população.

 “Há dois anos compro batata na Ceasa. Às vezes pago R$ 20, 00 às vezes R$ 25,00. Dá para aproveitar um bocado. Não é muito, mas dá para defender o do pão”, explica Irene, 35 anos, nascida em Tabatinga, pertencente a etnia Tikuna, da região do Alto Solimões. “Há 10 anos sustento os meus filhos porque revendo batata, cebola, tomate, pimentão, repolho que compro dos cerealista e cato nas lixeiras da Ceasa”, completa Irene.
    

    
Sub-retranca


O reaproveitamento de produtos hortifrutigranjeiros em estado de decomposição não é recente nas dependências da Central de Abastecimento S.A. Há mais de 20 anos essa atividade é praticada livremente e até hoje ninguém sequer foi notificado por alguma autoridade sanitária do município.

A coleta é feita diariamente e presenciada por todos que visitam aquele complexo de abastecimento, desativado desde 1980 para o comércio varejista.

Em volta das lixeiras, além da grande quantidade de insetos e da presença de cães vadios, concentram-se crianças de todas as idades, jovens, adultos e idosos à cata do melhor produto.
 
Como a quantidade é grande, suficiente para atender as necessidades de consumo e de demanda da clientela dos catadores (donos de restaurantes, feirantes e outros), a escolha é feita democraticamente.

Satisfeitos com o apanhado do dia, cada um segue o seu caminho.

Muitos vão direto para casa com uma, duas ou mais sacolas sortidas e recheadas de verduras e legumes. No caminho, ainda é possível notar o rastro deixado pela salmoura caída das sacolas.

Os demais permanecem na Ceasa, separando e “limpando” com o auxílio de um pedaço de pano sujo e molambento tudo o que foi coletado.  A água, que poderia ajudar na “limpeza”, só para beber. Feito isso, começa então o processo de armazenamento.

Verduras e legumes, recém-tirados da lixeira ou adquiridos de cerealistas, são acondicionados em pequenos sacos de nylon e distribuídos aos clientes.

E todos ficam felizes – catadores, donos de restaurantes, intermediários e o consumidor. “A sacola é sortida e o preço ajuda”, garante José de Aquino, que não tem do que reclamar do saquinho de verduras adquirido.



- Vale a pena comprar a sacolinha? Pergunta o repórter.
- Só vale, com R$ 2,00 levo para casa mais de 4 quilos de verduras, comenta José Aquino, 27, um antigo freguês dos segundinhas da feira do Jorge Teixeira.
- O senhor sabia que essas verduras são tiradas do lixo?  Prossegue o repórter.
- É mesmo? Reage o consumidor, que analisa detidamente a sacola e com um largo sorriso faz de conta que tudo não passou de uma brincadeira.

Se José de Aquino não deu a mínima para a informação, alegria era o que não faltava para Manoel Pereira, intermediário da feira do Jorge Teixeira, zona leste, que todos os finais de semana comercializa três carrinhos de supermercado abarrotados de sacolinhas. “Dá para defender o do peixe”, festeja o vendedor, que não esconde que é abastecido pelos catadores da Ceasa. “Vou ao local e compro.  O material é bom, o que não serve é jogado fora. Pode por fé”, defende.


    
 

Leptospirose

A ingestão de alimentos fora dos padrões de conservação e higiene exigidos pelo Ministério da Saúde pode trazer conseqüências gravíssimas para a saúde da população. Segundo o pesquisador do Inpa, a cadeia de contaminação desses produtos é grande. Ainda que passasse por um processo de purificação, à base de cloro, ele afirma que o risco para a saúde é iminente.

A leptospirose, doença transmitida pela urina do rato, foi citada pelo pesquisador como uma das mais fáceis de ser adquirida uma vez que os depósitos em que são acondicionados os produtos chegados à Ceasa  são bastantes favoráveis àquela espécie de roedor.

Além da leptospirose, a pesquisadora destacou as doenças diarréicas, além das parasitárias e da ameba, que podem ocorrer na utilização do consumo de alimentos mal cosido ou cru.

 

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