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‘Algumas falas foram roubadas de mim, diz viúva de Michelangelo Antonioni

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RIO- Há uma estudante que embarca na jornada de um americano em crise de identidade em “Profissão: repórter” (1975); uma jovem que se torna obsessão de um diretor em busca da mulher ideal em “Identificação de uma mulher” (1982); e uma gerente de loja que flerta com um realizador de meia-idade no último dos quatro episódios de “Além das nuvens” (1995). Todas elas carregam algo de Enrica Fico e de sua relação afetiva e profissional com o marido, o diretor italiano Michelangelo Antonioni, morto em 2007, aos 94 anos, e podem ser conferidas na retrospectiva completa de seus filmes, em cartaz até o dia 22 deste mês no Centro Cultural Banco do Brasil.

Em alguns casos, é a própria Enrica quem dá voz a uma reinterpretação de si mesma:

— Algumas falas da minha personagem em “Além das nuvens” foram “roubadas” de mim e de diálogos trocados com pessoas com as quais dividíamos a nossa vida — conta a viúva do mestre do neorrealismo italiano, aos 63 anos, em entrevista ao GLOBO.

Enrica era uma jovem modelo em busca de independência financeira quando foi apresentada a Antonioni por um amigo em comum, em Roma, em 1972. Era o início de um relacionamento improvável entre um filho da burguesia de Ferrara e uma artista de espírito livre nascida nos arredores de Gênova que duraria até a morte do autor de ícones como “A aventura” (1960), “A noite” (1961) e “O eclipse” (1962). Os dois só se casaram oficialmente em 1986, um ano após o derrame sofrido pelo diretor. Seja como atriz, produtora, roteirista ou musa, Enrica teve papel fundamental na segunda metade da trajetória de Antonioni, sobre quem chegou a fazer dois documentários, “Fare un film per me è vivere” (1995), em cartaz na mostra do CCBB, e “Com Michelangelo” (2005).

A senhora tinha 18 anos quando conheceu Antonioni — ele tinha 59. Enfrentou algum tipo de preconceito por causa da diferença de idade entre vocês dois?

Enfrentei centenas de manifestações de preconceito. Mas, felizmente, costumo ouvir os conselhos de todo mundo, tiro minhas próprias ideias e então faço o que acho correto. Não foi fácil, naquela época, mas valeu a pena, com certeza.

Sua relação com Antonioni inspirou alguns dos filmes realizados posteriormente à união de vocês, em termos emocionais ou temáticos?

Com certeza. Aquela jovem estudante de arquitetura de “Profissão: repórter”, interpretada por Maria Schneider, que cola na jornada do personagem de Jack Nicholson, poderia ser eu. Lá estou “eu” novamente, desta vez interpretando um papel, no último dos quatro episódios de “Além das nuvens”. Algumas falas da minha personagem foram “roubadas” de mim e de diálogos com pessoas com as quais dividíamos a nossa vida. O fato de eu ser muito mais jovem do que ele fornecia a Michelangelo um outro ponto de vista sobre a vida. Ele podia conhecer amigos mais novos, viajar com menos bagagem, porque eu não era uma diva nem uma atriz, apenas uma jovem, porém madura mulher.

A senhora trabalhou como atriz em três dos filmes de Antonioni. Como descreveria a experiência de ser dirigida por alguém como ele, considerado um dos grandes mestres do cinema moderno?

Na verdade, não mereci muita atenção do meu diretor... Se ele achasse o primeiro take bom, nem se incomodava em repetir a cena, talvez porque não quisesse criar algum tipo de problema com a produção. Michelangelo não queria que eu me tornasse uma atriz, não desejava criar uma atriz de mim. Ele via outros talentos em mim, e fico feliz de ter feito poucos trabalhos como atriz e assim poder dedicar mais tempo a aprender sobre direção, estilo, e ser capaz de ver as coisas de forma diferente. Agora faço de conta que consigo observar as coisas como ele, que herdei dele a curiosidade e a vontade de saber de tudo.

A senhora trabalhou com Antonioni em diversas outras funções, seja como assistente de direção, compositora ou roteirista, enquanto ele esteve vivo. Gostaria de ter feito mais filmes próprios, como diretora?

A verdade é que eu permaneci criativamente inativa depois que ele nos deixou. Levei dez anos para que pudesse respirar com meus próprios pulmões. Só agora começo a pensar em fazer algo em cinema novamente, e acho que em breve o farei.

Muitos dos filmes de Antonioni lidam com a busca ou a construção de uma identidade. A senhora entende a razão disso? Ele foi, ao longo da vida, um homem pessoalmente atormentado por essas questões?

Entendo muito bem, como mulher, e como mulher de Michelangelo, esse ponto fraco da personalidade dele. É uma história muito complicada e longa, que não conseguiria contar em uma pequena entrevista, mas, sim (), era um dos seus temas favoritos. A inabilidade de amar, de não reconhecer os sentimentos... Ele foi, com certeza, um homem perturbado no amor. Quem não é? Não é essa a razão pela qual nascemos? Para aprender a amar?

A senhora enxerga nos personagens dos filmes de Antonioni algum que seja mais próximo do homem que ele foi?

Acho que havia algum aspecto do Michelangelo em todos os personagens que ele criou. Mas ele tentou manter uma distância dele mesmo em todos os filmes que fez, de não colocar muita paixão em um ou outro personagem. Ele gostava mais de observar o comportamento dos outros e esquecer de si mesmo.

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